Tuesday, September 7, 2010

Eles

Postado por Navii em 25 - fevereiro - 2009


Brincar o Carnaval não estava nos meus planos. Até que recebi um convite para um camarote estatal, na Barra. Os amigos insistiram. Tá, topei! Mal sinalizei com o “topei” despejaram a série de alertas. Não leve cartão ou talão de cheques. Documento, só xerox. Leve dinheiro trocado, miúdo, espalhado pelo corpo. Não, não adianta colocar no bolso da calça, eles metem a mão no bolso e você nem vê. “Eles?” Mas é melhor não ir de calça, ou melhor, não se usa calça em carnaval. Bermuda velha, abadá, você tem abadá?! Engraçadinho! Interrompi a lista de alertas para esclarecer. “Vou de calça”. Então, arranje uma bolsinha e amarre na cintura, por baixo da cueca. Sabe aquelas bolsinhas tipo kit brega? Mas não dobre o dinheiro porque faz volume e eles vêem. “Eles?” Eles, os senhores da festa. Ah! Durval, Saulo, Carlinhos? Por que não”elas”? E o que eles querem com meus trocados no kit brega por baixo da cueca?

Quando decidimos sair, novo alerta. Você vai levar a chave da casa? É melhor não. Deixe em algum canto, embaixo do tapete, atrás da planta. Nossa, até a chave da casa?! Ah! Também esqueça o carro. Nada de carro. Vamos de taxi. E assim pegamos o taxi. Reparei que o taxista nos olhou preocupado. E meus amigos olharam o taxista igualmente preocupados. Rádio Itaparica no ar, propaganda do Chiclete, de Bell, da loja de vinhos, da rádio. Som do Chiclete, de Bell. Ai fiquei sabendo que a Itaparica é de Bell, do Chiclete. Cultura do Carnaval. Saímos do Candeal às 22h. Chegamos na Barra quase meia-noite, depois de uns 20 quilômetros de rádio Itaparica. Na divisão do táxi, um drama. Todas as bolsinhas kit-brega expostas ali, naquela cena humilhante de cuecas pra fora.

Descemos na multidão do Chame-Chame (até a Barra seriam mais duas horas). Notei os amigos tensos. Comecei a ficar tenso também. Todos tensos. Paramos para pedir informação. O rapaz parecia embriagado. “ Vocês tão perdido… nós leva lá”. Gentileza fora de hora. Meus amigos desistiram e eu achei que o rapaz poderia ser um “deles”. Fomos atrás do camarote da Bahiatursa. Tudo free, tudo calmo, tudo gente fina por lá. Nunca fui num camarote. Também por isso aceitei brincar o carnaval. Depois de atravessar em zigzags multidões de bêbados, de turistas (os turistas parecem todos bêbados), de gente aos gritos, de índio branco, de branco preto, de malhados, tatuados e desafinados, chegamos. Meus amigos pareciam saídos do front. Você não viu? Passamos por vários deles. “Deles”?!

Desista de conversar no Carnaval. Tinha essa ilusão. Encontrei meu amigo Ernesto, também de calça. Arráá! Ernesto também devia estar com uma bolsinha kit brega na cueca! Mas lógico, não havia como conversar. O som do camarote da Bahiatursa era… era pra ser interditado pela Bahiatursa. Sabe aquela música chata (virou chata) de Gonzaguinha… “e a vida.. e a vida o que é diga lá mermão”. O cantor aos berros não acertava a letra. Aquilo sim me irritava. Pensei em voltar dali. Mas não, vamos ver pelo menos um trio passar. E começou a passar o trio do Nu Outro. Tomate, o cantor. Minha nossa! Como todos sabem que é raro tomate orgânico, sem agrotóxico… xapralá. Mas havia outro trio na linha de ataque. Até aquele momento, nada “deles”. Foi bom ter ficado pra ver o trio do Trimix, sem Tatau. O Trimix é aquele que arrastou 3 milhões de foliões, segundo o Correio. Mas que coisa fofa! O trio trazia uma banda de Goiás, os Cavaleiros Elétrico (elétrico, no singular). Deve ser brincadeira dos goianos com Trio Elétrico. Porque para eles, de Goiás, o certo seria Trio Elétricos. Como Trio Elétrico faz sucesso, resolveram criar os Cavaleiros Elétrico. Coisa fofa, nada. Misturaram música sertaneja Gospel com axé e carmens mirandas da Rua Manuel da Nóbrega. E os dois cantores de camisas listradas preto e branco! Vascooo!! E toda a banda de camisas listradas, vermelho e branco!! Wallyyy!! Pra mim era demais! Saímos do camarote de volta ao front. De novo meus amigos tensos, em zigzags. Cheguei em casa quase às 3h, exausto de brincar o Carnaval. Tirei a roupa, tomei banho e caí em sono. Foi quando, dormindo, lembrei do kit brega.

Sumiu!

Por Arthur Andrade

1 Response

  1. Bi Said,

    Kit brega no final de tudo é kit Nhaca. Nem o ambulante tem coragem de aceitar o dinheiro. hahahaha
    É o que melhor retrata a expressão “Dinheiro suado”. kakakakakakaka
    Bjs, Bi

    Posted on fevereiro 26th, 2009 at 13:51

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