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A senhora ficou conhecida por sua trajetória musical. Em que momento surgiu o interesse pela militância ecológica?
Toda a minha trajetória desde a juventude teve duas dimensões: reflexão e ação. A música que eu fazia carregava níveis de reflexão e, na medida em que fui caminhando na vida, me engajei em vários movimentos sociais, a banda foi um deles. Comecei com movimento antimilitar, depois antinuclear, depois eu fui feminista política – o que naquela época era um movimento anti-homem.
O movimento ambientalista foi só uma continuação de uma série de movimentos. A música me levou para a Grã-Bretanha, onde eu me aprofundei na questão dos assentamentos humanos sustentáveis. Há 18 anos moro numa ecovila.
O que é exatamente uma ecovila?
É um laboratório de novas relações humanas com o entorno. Nós avançamos a agenda de sustentabilidade ao construir as casas ecologicamente, ao reduzir a própria energia, trazer a saúde de volta para as mãos da ecovila. A agenda da sustentabilidade é multifacetada, envolve os aspectos ecológico, social e econômico.
Nós consumimos metade do que qualquer britânico consome e geramos metade do lixo e temos uma altíssima qualidade de vida. Como laboratório, a gente mostra que redesenhar nossas vidas de quantidade para qualidade não precisa ser doloroso, podemos viver com menos.
Se todos nós tivéssemos o padrão norte-americano de vida, precisaríamos de quatro planetas e meio.
O petróleo continua sendo um grande propulsor da economia mundial, a exemplo da intenção norte-americana de expandir a exploração no continente e do Brasil, com a camada pré-sal...
A exploração de petróleo é uma questão de tempo, e nós temos diante de nós duas opções. Ou vamos redesenhar uma mudança ou vamos ser vítimas da mudança. Se continuarmos baseando nossa cultura na exploração de petróleo, vamos emitir mais carbono do que podemos.
Mesmos se parássemos hoje, o planeta já esquentaria de 1,8° C a 4° C. Devemos desenhar essa transição, do contrário, os nossos netos vão lembrar de nós como aquela geração que só pensou em consumir mais e mais.
O ser humano é cada vez mais dependente da tecnologia, quando adquire um aparelho mais avançado descarta o anterior. Como é possível desacelerar essa tendência “natural” de consumo?
O tecnológico tem um lugar na nossa sociedade, mas ele tem que ser combinado com a qualidade humana, com “escutar” aqueles bolsões de biodiversidade que ainda guardam a memória da criação do mundo.
A tecnologia ainda tem um lugar, mas ela tem de ser menos nociva.
Exemplos? Com a ecovila, nós geramos toda a nossa energia. Como? Com tecnologia. Toda a eletricidade é gerada por moinhos de vento, temos uma fábricas de painéis solares. Toda nossa água quente vem da energia do sol.


Quais bens não são gerados na ecovila?
Nós não somos uma ilha, compramos lâmpadas, carros. Mas nós tentamos olhar como o consumo local pode apoiar a economia local. Ao invés de comprar num grande supermercado, num Carrefour da vida, cujo lucro vai para a França, você tenta comprar do fazendeiro local, porque o dinheiro vai circular regionalmente.
A questão da biodiversidade está muito ligada à localização dos recursos, das atividades. É cada bairro, cada cidade em transição começar a olhar para dentro e se perguntar como pode apoiar a economia local, circular o dinheiro internamente, ao invés de comprar mais barato sabendo que o dinheiro vai embora. A grande discussão do momento é resiliência, não sustentabilidade, essa capacidade de continuar funcionando na medida em que o sistema entra em choque ou se descontrola. É o que a gente imagina que vai acontecer.
Já aconteceu há um ano e meio na Europa. A Grã-Bretanha teve sua maior recessão mesmo depois da Segunda Guerra. A única indústria que cresceu foi a indústria das sementes, porque as pessoas relembraram a possibilidade de começar a transformar seus jardins ornamentais em jardins comestíveis. Isso é resiliência, você começar a resolver as questões mais localmente e para suas necessidades básicas.

Mas Como é possível pensar numa ecovila em Salvador, onde há bolsões de pobreza, invasões em áreas de risco vulneráveis à chuva? Como pensar em ecobairros num lugar onde não há as mínimas condições de saneamento básico?
É por aí que nós temos que começar.
Os ecobairros vão ter que se instalar nessas comunidades, onde já existe uma teia de solidariedade. As tecnologias das ecovilas são de baixíssimo custo. Em Londres, nós temos, hoje em dia, bairros de transição, que nasceram independentes e hoje fazem uma rede com outros bairros.
Uma coisa que basta é o P da participação.

Como os ecobairros poderiam sobreviver diante da violência urbana?
Eu acredito que a violência não é causa, é sintoma. A causa é a (ausência de) educação, disparidade social, falta de oportunidade. Os jovens precisam ter outras opções que não a do banditismo. Não é uma fórmula fácil, mas é possível.
Salvador tem inúmeros problemas de transporte público, de alagamentos na chuva. Nossos rios estão sendo tapados com concreto por falta de uma política eficiente de despoluição das bacias fluviais. Quanto tempo seria suficiente para tornar a cidade sustentável?
Dez anos, dependendo dos atores locais, (num movimento) de baixo para cima e de cima para baixo. Para isso, é preciso necessidade e vontade.
A necessidade está clara, veja o que aconteceu no Rio de Janeiro, não precisamos nem de evidência científica. Desastres naturais vão começar a acontecer cada vez mais.
Filmes como Avatar abordam questões como não-agressão ao meio ambiente e uma convivência harmoniosa com a natureza. Quem a senhora acredita que “banca” esses projetos em H o l l y wo o d ?
A consciência ecológica está emergindo no planeta sem um dirigente.
Ela nasce como se fosse tema imunológico de uma humanidade despertando num trem-bala a mais de 500 km/hora em direção ao abismo.
Ela emerge em Hollywood, em Findhorn ou num ecobairro.

Fonte: Revista Muito - 25.04.2010
Jornal A Tarde - Salvador
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