Tuesday, September 7, 2010

Archive for janeiro, 2010

Por Ernani Franklin

Partindo do pressuposto de que a abordagem macrobiótica da alimentação não é nem nunca foi proibitiva, é importante distinguir como se enquadra a alimentação, dita macrobiótica(que já não é mais macrobiótica e sim micromacrobiótica) nos seus dois aspectos:

Para fins terapêuticos específicos em problemas de saúde, que seleciona alimentos específicos em proporções específicas para efeitos de desintoxicação e revitalização fisiológica, procurando melhorar a qualidade do sangue e sistemas orgânicos.

Neste caso a ênfase é nos grãos, cereais, e vegetais com mínimo ou nenhum alimento de origem animal.

Para fins de nutrição, desenvolvimento orgânico e preservação da boa saude, que permite um leque maior de opções alimentares selecionados de acordo com a região, o clima, as disponibilidades da pessoa, buscando um certo nível de harmonização com o ambiente onde se vive.

Neste caso as proporções podem variar de pessoa a pessoa, a depender do ambiente e do clima, com uma certa proporção de proteína animal de qualidade e frutos da região, porém evitando alimentos muito processados e artificiais.

A abordagem da “macrô”  foi e sempre será “regional”. Nunca houve uma macrobiótica internacional, nem tampouco um padrão ou uma doutrina universal. O princípio filosófico que orientou a macrobiótica de George Ohsawa é regido pelos dois aspectos Yin-Yang da energia da natureza que sugere esta adaptabilidade, interatividade e complementariedade antagônica entre calor e frio, dia e noite, masculino e feminino, macro e micro cosmo, luz e escuridão, global e local.

Outro aspecto a considerar é que é difícil, senão impossível, alguém ou um dono de restaurante, seja “macrô” ou “vegan”, estimar qual parte do seu público segue ou não os princípios filosóficos que permeiam tal ou qual estilo de se alimentar. Quem poderia dizer o grau de envolvimento das pessoas com doutrinas ou filosofias?

Mesmo que haja alguns com firmes propósitos e que procurem respeitar determinado estilo, quem pode garantir ou avaliar que estejam de fato seguindo um caminho adequado para seu organismo e bem estar, e de maneira correta ou aceitável? Não há uma resposta fácil. Há quem vá a um restaurante natural por curiosidade( a convite ou sugestão de alguém), ou por questão de saúde momentânea, talvez simples relação de custo-benefício para alguns, outros por não poderem adotar cozinhar em casa, outros por mudança de consciência, outros por convicções ideológicas, ecológicas ou filosóficas, enfim, um público bastante e cada vez mais diversificado.

Apenas a própria pessoa é capaz de apreciar e colher os benefícios de uma prática criteriosa no âmbito da higiene alimentar. Se a pessoa estiver se harmonizando com o ambiente e as pessoas, mantendo bons níveis de saúde, vitalidade e contentamento, “possivelmente” encontrou um bom modelo de higiene que atenda às suas necessidades.

Caso contrário, se ela continua desarmonizada consigo e com o entorno, recorrentemente apresentando disfunções e problemas de saúde, oscilações de humor e comportamento, é claro e evidente que precisa de auxílio e que deva buscar aprimorar sua higiene na alimentação. Porém não tão somente no alimento físico, como também no alimento sutil, nas demais energias da natureza, no cultivo dos sentimentos e harmonia das emoções, nas mudanças de hábitos prejudiciais, na procura de objetivos superiores de auto-desenvolvimento e auto-preservação.

Todos estes aspectos estão compreendidos na verdadeira abordagem macrobiótica segundo a filosofia da medicina oriental( não confundir com modismos e dietas alternativas passageiras, nem tampouco com radicalismos sectários de alguns).

Muita gente pensou e continua achando que a abordagem macrobiótica é simplesmente dietética. Outro motivo de preconceito e evidente falta de entendimento. Esta abordagem é primordialmente auto-educativa desde sua proposta original(v. Macrobiótica Zen - G. Ohsawa - obra pioneira nesta abordagem traduzida em língua ocidental))

Sobre a questão dos temperos vale considerar que o uso dos condimentos e ervas aromáticos sempre é importante no aspecto da fitoterapia. Apenas o que se procura evitar quando uma pessoa tem certo problema de saúde é o excesso e abuso de determinados condimentos prejudiciais. Isto ajuda que ela recupere, inclusive, sua sensibilidade gustativa e olfativa que fica prejudicada quando se abusa de temperos e sabores fortes.

Portanto, daí a utilidade de alimentos e receitas mais simples, inclusive abstinências e jejum quando for necessário, como forma de desintoxicar, reorganizar a energia e recuperar o organismo de forma eficaz. Estando claro que uma vez que o organismo consiga se revitalizar é considerada a possibilidade de voltar a se alimentar de forma mais ampla e abrangente, evidentemente sem retornar com hábitos prejudiciais. Isto vai depender muito de cada pessoa, idade, condição energética, ritmo de vida etc.

(*) Ernani Franklin é naturista, consultor alimentar e mestre em Tai Chi

Decrescimento sustentável: crescer é mesmo necessário?

Posted by Navii On janeiro - 29 - 2010

Professor emérito da Universidade Paris XI, o economista francês Serge Latouche lança ousada tese para reduzir a devastação dos recursos naturais do planeta. Ele defende a “descolonização do nosso imaginário”.

As idéias do economista e filósofo francês Serge Latouche se chocam com o estilo de vida dos habitantes das grandes cidades do mundo. Professor emérito da Faculdade de Economia da Universidade Paris XI e do Instituto de Estudos do Desenvolvimento Econômico e Social (Iedes), Latouche – nascido em Vannes, em 1940 – critica vorazmente o crescimento econômico promovido pelos estados. Defende com ardor uma suposta “descolonização” do nosso imaginário e uma mudança de comportamento mais ativa para salvar o planeta do esgotamento de recursos naturais. O ritmo anda acelerado e estamos consumindo demais, acredita o pensador, que construiu nas últimas décadas toda uma crítica contra a ocidentalização do mundo. Latouche é um dos principais portavozes do movimento pelo decrescimento. Tem vários livros e artigos publicados sobre o tema, inclusive no Brasil. Mas, apesar da visão aparentemente trágica, assume-se como um otimista e acredita na vontade da juventude de viver num mundo melhor.

Como o senhor define o decrescimento sustentável? Criamos esse slogan em 2002 para ir de encontro ao que todos falavam na época sobre o crescimento sustentável. Era preciso marcar uma ruptura radical, porque o crescimento não é durável. Por isso, nós buscamos esta palavra provocadora: decrescimento. O crescimento pelo crescimento ninguém acha absurdo. Então o decrescimento força as pessoas a pensar: “O que isso quer dizer?” Quando falamos em decrescimento, falamos em sair de uma religião do crescimento ligada à economia e ao progresso.

É possível alterar essa lógica? O relatório do Clube de Roma de 1972 já dizia que uma sociedade de crescimento não era sustentável. Muitos sociólogos e filósofos mostraram que ela não era nem mesmo desejada. Como as ameaças se aproximam, torna-se mais visível. O projeto de uma sociedade de decrescimento não é uma alternativa, e sim a libertação de uma ditadura econômica para reinventar um futuro sustentável. Uma sociedade não pode sobreviver se não respeitar os limites dos recursos naturais. Eu proponho um ciclo virtuoso do decrescimento: reavaliar, reconceitualizar, reestruturar, redistribuir, relocalizar, reutilizar e reciclar. Os dois primeiros termos são importantes para colocar em questão os valores comuns em nosso imaginário. Reconceitualizar é mudar nossa maneira de pensar. É uma verdadeira revolução cultural.

Mas como iniciar a mudança? Precisamos renunciar a essa atitude predadora, ter uma mudança de atitude mental. Não somente um com portamento individual e sim o produto de um sistema. Muita gente já está convencida de que não é preciso destruir todas as espécies para ganhar mais. Entretanto, são forçados pela lógica do mercado, pela concorrência e pelo marketing. Vamos então mudar de programa para depois trocar de computador. Alterar a base de produção e torná-la mais adequada às necessidades do meio ambiente. Buscar a reutilização, a reciclagem

Nosso ritmo está muito acelerado? Absolutamente. É necessário dar um basta ao consumo excessivo. Não é somente uma ação individual – porque, se apenas reduzo meu consumo, isso não mudará muito. Temos que mudar o modo de produzir as coisas. Você pode comer um bife em que o gado é criado em pastos naturais ou um bife de uma fazenda que obedece à lógica de mercado. No último caso, você come petróleo. Ele incorpora 6 litros de petróleo. Como isso é possível? O gado é alimentado com a soja que é plantada na Amazônia. Os tratores destroem as florestas, fazem a plantação e despejam os pesticidas. Tudo isso é petróleo. Devemos colocar esse sistema em causa, e não o fato de comermos um bife.

Seremos realmente mais felizes se consumirmos menos? O consumo traz cada vez menos a felicidade. Vários indícios provam isso. Muitos estudos apontam para o aumento de suicídios e a utilização de antidepressivos. O estresse tornou-se um problema grave em nossa sociedade. Mas ao mesmo tempo somos viciados nesse estilo de vida. Necessitamos de uma terapia.

O mercado de produtos orgânicos indica uma mudança de comportamento? Aqui na França, as grandes cadeias de supermercados já têm uma linha própria de produtos orgânicos e provenientes do comércio responsável. Essa tomada de consciência é importante porque um dos aspectos destrutivos do meio ambiente é a agricultura produtivista. Tudo o que seja uma alternativa a isso é benéfico. A produção familiar e sem pesticidas é uma das condições para um futuro sustentável.

Mudar a matriz energética pode ser uma das vias de solução? Como dizia a ministra do Meio Am biente da República Checa: “Quando há uma inundação no banheiro, você pode secar com um pano de chão”. O que eu faço de imediato é fechar a torneira. Enquanto não decidirmos limitar o consumo de energia, todas as soluções de energia renovável não servirão para muita coisa. A primeira coisa a fazer é fechar a torneira.

A geração de agora é capaz de fazer essa transformação? Em teoria, ela deveria ser menos capaz. Ela já está mais pervertida. O grande problema está na educação. Quais crianças deixaremos no mundo? Como nós deixamos às nossas crianças um mundo estragado, nós deixamos também para o mundo uma geração pervertida. Apesar de tudo, ainda há uma luz de esperança. Vejo uma participação crescente de jovens no movimento pelo decrescimento sustentável em vários países da Europa. Eles se organizam, tomam iniciativas. Eles querem viver num mundo melhor, salvar a humanidade e o planeta.

E qual seria então a mensagem do decrescimento? A mensagem não é somente reduzir o excesso de consumo e os danos ecológicos, mas também reduzir a quantidade de trabalho. Não é trabalhar menos para ganhar mais. É trabalhar menos para que todos possam trabalhar e viver melhor. Assim, teremos mais tempo livre para gastar com coisas que realmente valem a pena. Escutar música, dançar, jogar, pensar ou mesmo não fazer nada. Mas, ao contrário, nós nos tornamos viciados no trabalho. Os americanos inventaram a palavra workaholic. Nós quase precisamos de um curso de desintoxicação para reaprender a viver. E, nesse ponto de vista, o decrescimento é uma arte de viver.

Fonte: Planeta Sustentável (www.planetasustentavel.abril.com.br)

29.01.2010

Clipping Navii.

Ecobairro acaba de ser implantado em Salvador

Posted by Navii On janeiro - 26 - 2010

Experiência baseada nas Ecovilas de Findhorn, Escócia, é implantada na cidade baiana, segunda do país a adotar a idéia

Com participação de dirigentes do Ecobairro São Paulo, primeira unidade do programa no país, o Ecobairro Salvador foi implantado no último fim de semana (23 e 24), durante seminário na sede do Instituto Roërich da Paz e Cultura do Brasil, no Itaigara. O Roërich (www.roerich.org.br) é a organização criadora e gestora do programa no país.

O Ecobairro é baseado na experiência das Ecovilas, sistema de vida comunitária implantado em Findhorn, na Escócia. Cerca de 15 mil localidades rurais no mundo adotam o modelo.  O Ecobairro é criação made in Brasil e única vertente urbana do programa escocês idealizado por Dorothy Maclean, Peter e Eillen Caddy, em 1962.

O projeto alicerçado nos princípios da cultura de paz e educação para o desenvolvimento sustentável busca estimular, nos bairros das grandes cidades, experiências vivas de sustentabilidade implantadas nas áreas rurais. As mudanças propostas devem alcançar as pessoas nas suas casas para que repercutam no bairro, na cidade, no planeta.  Salvador é a segunda cidade do país a adotar a idéia. Brasília será a próxima.

Visão de mundo

“Buscamos compartilhar visão de mundo e trabalhar para criar comunidades sustentáveis nos bairros, fortalecendo vínculo afetivo com o lugar, despertando o cuidado com todos os seres”, registra o publicitário baiano Paullo Santos,  co-fundador do programa e um dos coordenadores do Ecobairro São Paulo.

É possível, sim, caminhar para uma vida sustentável nas cidades, reforça o economista Vitor Ades, nucleador de Economia do Ecobairro São Paulo.  Significa estimular e fortalecer a formação de redes de cooperação, dentre outras ações.

Criatividade e idéia de harmonia e diversidade inspiram as ações do Ecobairro. “Antigos saberes devem dar as mãos às mais novas descobertas científicas num movimento contínuo de reconciliação entre o velho e o novo”, anota Ades.

Este mundo sustentável valoriza a noção de comunidades, entendidas como agrupamentos humanos que prezam o cuidado com pessoas e o ambiente. Assim, uma cidade mais solidária será fruto natural da consolidação de comunidades sustentáveis, destaca Paullo Santos.

Experiência pioneira

O objetivo do Ecobairro é resgatar o bem-estar e o vínculo com o lugar onde se mora na cidade. Em São Paulo, a experiência pioneira está transformando a Vila Mariana, bairro onde está instalada a sede do programa, em referência de mobilização e força política. “Hoje temos representação política na Assembléia Legislativa de São Paulo”, diz a médica pernambucana Maridite Oliveira, nucleadora de política do Ecobairro São Paulo.

“Se não conhecemos nosso bairro e nossa rua, como poderemos cuidar deles?”, questiona Ana Maria Santos, vice-diretora do Instituto Roërich. A proposta é começar os trabalhos no Itaigara,  bairro que oferece condições para o desenvolvimento  do programa  e  sua repercussão para outros bairros,  acredita Ana Santos.

O Ecobairro propõe-se a apoiar moradores a encontrar maneiras de praticar a sustentabilidade dentre e fora de suas casas. Em Salvador, pretende estimular ações educativas, culturais, sociais e de saúde em praças do Itaigara, no primeiro momento. As atividades serão, na sequência, ampliadas para Pituba, Nordeste de Amaralina, Rio Vermelho dentre outros.  A meta é formar núcleos em todos os bairros, diz a artista plástica Denise Noronha, uma das coordenadoras do Ecobairro Salvador.  Um sonho? “Findhorn era um sonho em 1962, hoje é uma realidade em 15 mil locais do mundo”, responde Lara Freitas, co-fundadora do programa e coordenadora do Ecobairro São Paulo.

Contatos:

Intituto Roërich Salvador

Rua Afonso Ruy de Souza, 554 - Itaigara (atrás do Colégio São Paulo). 71-3357-7086

Coordenadoras:

Ana Maria Santos- 8788-1947

Denise Noronha- 9971-9561

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Por Arthur Andrade

O Haiti e a maldição branca

Posted by Navii On janeiro - 25 - 2010

No primeiro dia deste ano, a liberdade completou dois séculos de vida no mundo. Ninguém se inteirou disso, ou quase ninguém.


Por Eduardo Galeano*

O Haiti foi o primeiro país onde se aboliu a escravidão. Contudo, as enciclopédias mais conhecidas e quase todos os livros de escola atribuem à Inglaterra essa histórica honra. É verdade que certo dia o império que fora campeão mundial do tráfico negreiro mudou de idéia; mas a abolição britânica ocorreu em 1807, três anos depois da revolução haitiana, e resultou tão pouco convincente que em 1832 a Inglaterra teve de voltar a proibir a escravidão.

Nada tem de novo o menosprezo pelo Haiti. Há dois séculos, sofre desprezo e castigo. Thomas Jefferson, prócer da liberdade e dono de escravos, advertia que o Haiti dava o mau exemplo, e dizia que se deveria “confinar a peste nessa ilha”. Seu país o ouviu. Os Estados Unidos demoraram 60 anos para reconhecer diplomaticamente a mais livre das nações.

Por outro lado, no Brasil chamava-se de haitianismo a desordem e a violência. Os donos dos braços negros se salvaram do haitianismo até 1888. Nesse ano o Brasil aboliu a escravidão. Foi o último país do mundo a fazê-lo.

O Haiti voltou a ser um país invisível, até a próxima carnificina. Enquanto esteve nas TVs e nas páginas dos jornais, no início deste ano, os meios de comunicação transmitiram confusão e violência e confirmaram que os haitianos nasceram para fazer bem o mal e para fazer mal o bem.

Desde a revolução até hoje, o Haiti só foi capaz de oferecer tragédias. Era uma colônia próspera e feliz e agora é a nação mais pobre do hemisfério ocidental. As revoluções, concluíram alguns especialistas, levam ao abismo. E alguns disseram, e outros sugeriram, que a tendência haitiana ao fratricídio provém da selvagem herança da África. O mandato dos ancestrais. A maldição negra, que empurra para o crime e o caos.

Da maldição branca não se falou.

A Revolução Francesa havia eliminado a escravidão, mas Napoleão a ressuscitara:

- Qual foi o regime mais próspero para as colônias?

- O anterior.

- Pois, que seja restabelecido.

E, para substituir a escravidão no Haiti, enviou mais de 50 navios cheios de soldados. Os negros rebelados venceram a França e conquistaram a independência nacional e a libertação dos escravos.

Em 1804, herdaram uma terra arrasada pelas devastadoras plantações de cana-de-açúcar e um país queimado pela guerra feroz. E herdaram “a dívida francesa”. A França cobrou caro a humilhação imposta a Napoleão Bonaparte. Recém-nascido, o Haiti teve de se comprometer a pagar uma indenização gigantesca, pelo prejuízo causado ao se libertar. Essa expiação do pecado da liberdade lhe custou 150 milhões de francos-ouro.

O novo país nasceu estrangulado por essa corda presa no pescoço: uma fortuna que atualmente equivaleria a US$ 21,7 bilhões ou a 44 orçamentos totais do Haiti atualmente. Muito mais de um século demorou para pagar a dívida, que os juros multiplicavam. Em 1938, por fim, houve e redenção final.

Nessa época, o Haiti já pertencia aos brancos dos Estados Unidos.

Nem Bolívar

Em troca dessa dinheirama, a França reconheceu oficialmente a nova nação. Nenhum outro país a reconheceu. O Haiti nasceu condenado à solidão. Tampouco Simon Bolívar a reconheceu, embora lhe devesse tudo. Barcos, armas e soldados lhe foram dados pelo Haiti em 1816, quando Bolívar chegou à ilha, derrotado, e pediu apoio e ajuda.

O Haiti lhe deu tudo, com a única condição de que libertasse os escravos, uma idéia que até então não lhe havia ocorrido. Depois, o herói venceu sua guerra de independência e expressou sua gratidão enviando a Port-au-Prince uma espada de presente. Sobre reconhecimento, nem uma palavra.

Na realidade, as colônias espanholas que passaram a ser países independentes continuavam tendo escravos, embora algumas também tivessem leis que os proibia. Bolívar decretou a sua em 1821, mas, na realidade, não se deu por inteirada. Trinta anos depois, em 1851, a Colômbia aboliu a escravidão, e a Venezuela em 1854.

Em 1915, os fuzileiros navais desembarcaram no Haiti. Ficaram 19 anos. A primeira coisa que fizeram foi ocupar a alfândega e o escritório de arrecadação de impostos. O exército de ocupação reteve o salário do presidente haitiano até que este assinasse a liquidação do Banco da Nação, que se converteu em sucursal do City Bank de Nova York.

O presidente e todos os demais negros tinham a entrada proibida nos hotéis, restaurantes e clubes exclusivos do poder estrangeiro. Os ocupantes não se atreveram a restabelecer a escravidão, mas impuseram o trabalho forçado para as obras públicas.

E mataram muito. Não foi fácil apagar os fogos da resistência. O chefe guerrilheiro Charlemagne Péralte, pregado em cruz contra uma porta, foi exibido, para escárnio, em praça pública.

A missão civilizadora terminou em 1934. Os ocupantes se retiraram deixando no país uma Guarda Nacional, fabricada por eles, para exterminar qualquer possível assomo de democracia. O mesmo fizeram na Nicarágua e na República Dominicana. Algum tempo depois, Duvalier foi o equivalente haitiano de Somoza e Trujillo.

E, assim, de ditadura em ditadura, de promessa em traição, foram somando-se as desventuras e os anos. Aristide, o cura rebelde, chegou à presidência em 1991. Durou poucos meses. O governo dos Estados Unidos ajudou a derrubá-lo, o levou, o submeteu a tratamento e, uma vez reciclado, o devolveu, nos braços dos fuzileiros navais, à Presidência. E novamente ajudou a derrubá-lo, neste ano de 2004, e outra vez houve matança. E de novo os fuzileiros, que sempre regressam, como a gripe.

Entretanto, os especialistas internacionais são muito mais devastadores do que as tropas invasoras. País submisso às ordens do Banco Mundial e do Fundo Monetário, o Haiti havia obedecido suas instruções sem pestanejar. Eles o pagaram negando-lhe o pão e o sal.

Náufragos anônimos

Teve seus créditos congelados, apesar de ter desmantelado o Estado e liquidado todas as tarifas alfandegárias e subsídios que protegiam a produção nacional. Os camponeses plantadores de arroz, que eram a maioria, se converteram em mendigos ou emigrantes em balsas. Muitos foram e continuam indo parar nas profundezas do Mar do Caribe, mas esses náufragos não são cubanos e raras vezes aparecem nos jornais.

Agora, o Haiti importa todo seu arroz dos Estados Unidos, onde os especialistas internacionais, que é um pessoal bastante distraído, se esquecem de proibir as tarifas alfandegárias e os subsídios que protegem a produção nacional.

Na fronteira onde termina a República Dominicana e começa o Haiti, há um cartaz que adverte: o mau passo.

Do outro lado está o inferno negro. Sangue e fome, miséria, pestes…

Nesse inferno tão temido, todos são escultores. Os haitianos têm o costume de recolher latas e ferro velho e, com antiga maestria, recortando e martelando, suas mãos criam maravilhas que são oferecidas nos mercados populares.

O Haiti é um país jogado no lixo, por eterno castigo à sua dignidade. Ali jaz, como se fosse sucata. Espera as mãos de sua gente.

* Eduardo Galeano é escritor e jornalista uruguaio, autor de As Veias Abertas da América Latina e Memórias do Fogo.

Clipping Navii

Thereza Coelho expõe “Imagens do Cárcere”

Posted by Navii On janeiro - 12 - 2010

therezaMostra reúne fotos sobre cotidiano de presídio de Salvador

Com curadoria da também fotógrafa Valéria  Simões, a exposição “Imagens do Cárcere” retrata o cotidiano de uma unidade prisional da Bahia.  São 30 imagens capturadas por uma câmera digital nas dependências de um presídio e ampliadas em papel fotográfico, mostrando particularidades e objetos dos detentos.

Thereza Coelho mostra por meio de suas fotografias o interior de celas  com de imagens de cômodos, utensílios, objetos pessoais, retratos recortes e lembranças.  As imagens coletadas revelam identidades criativas por meio de pinturas, colagens  e instalações naturais que compõem um universo totalmente reservado a um mundo muito interior como um complexo prisional.

“Imagens do Cárcere” vai de 22 de janeiro a 28 de fevereiro na Galeria Arcos (Caixa Cultural) abrindo oficialmente o calendário de exposições do espaço da Caixa Econômica, de Salvador.

O acesso é  gratuito, sempre no horário das 9h às 18h, de terça a domingo. A abertura para convidados e imprensa acontece no dia 21 de janeiro, às 20h.

“Para fazer as imagens, adentrei com a minha câmera em postos e acomodações dos internos na companhia de um agente de segurança prisional, fazendo rapidamente os meus registros, já que as instalações iriam entrar em reforma a qualquer momento e tudo iria ser reconstruído”, conta Thereza Coelho. “Eu sabia que contava apenas com a possibilidade de fazer este ensaio nessas condições, já que, a partir do início da obra, paredes, objetos e marcas pessoais dos detentos iriam ser removidos, deixando em seu lugar um ambiente anônimo, seco e impessoal”, observa a fotógrafa.

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“A fotografia tem um enorme poder de síntese e poesia. Imagens do Cárcere nos faz navegar por um universo particular de homens privados de sua liberdade, que buscam a reconstrução de uma parcela mínima de identidade. Thereza nos mostra com muita sensibilidade essas marcas deixadas e acumuladas ao longo do tempo por um contingente de excluídos”, registra a curadora da mostra, Valéria Simões.

A exposição busca ainda chamar atenção para a crescente violência urbana. É sabido que a superlotação das prisões, as más condições de habitação e a precária assistência jurídica, educacional, de saúde e social são elementos que dificultam a reintegração dos detentos à sociedade.

Psicóloga formada pela UFBA com mestrado e doutorado em Saúde Coletiva, Thereza Coelho é professora do novo Instituto de Artes e Humanidades Milton Santos (IHAC). Como fotógrafa, ganhou concursos nacionais a exemplo do V Salão Nacional de Arte do SESC Amapá e III Concurso Fotográfico Sérgio Buarque de Holanda “Brasil: mostra tua cara”. Thereza Coelho já participou de 11 salões e 33 exposições coletivas em Salvador, Maceió, Recife, São Paulo, Curitiba e Macapá, dentre outras.

Por Arthur Andrade

Com clipping Navii

Biocombustíveis são embuste, diz criador da hipótese Gaia

Posted by Navii On janeiro - 8 - 2010

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Segundo James Lovelock, a conversa mole dos vendedores tem a ver com o mundo que eles conhecem, o mundo urbano. “A Terra real não precisa ser salva. Pôde, ainda pode e sempre será capaz de se salvar, e agora está começando a fazê-lo, mudando para um estado bem menos favorável a nós e outros animais. O que as pessoas querem dizer com o apelo é ’salvar o planeta como o conhecemos’, e isso agora é impossível”, registra o autor de Gaia: Alerta Final.


Energia eólica, biocombustíveis e outras tecnologias “verdes” parecem ser alguns dos melhores investimentos para minimizar as alterações climáticas e ajudar a deter o aquecimento global, certo? Não para um dos ambientalistas mais respeitados do mundo, James Lovelock.

Conhecido internacionalmente por ser o autor da chamada hipótese Gaia –que, resumidamente, considera o planeta Terra como sendo um superorganismo–, Lovelock afirma em seu livro “Gaia: Alerta Final” que algumas destas tecnologias não passam de “um elaborado embuste criado pelo interesse de algumas nações cujas economias se enriquecem a curto prazo pela venda de turbinas eólicas, usinas de biocombustível e outros equipamentos energéticos supostamente verdes”.

De acordo com ele, existem muitas coisas que podemos fazer para amenizar os problemas causados pelas mudanças no clima –no entanto, ele acredita ser muito pouco provável que realmente as levemos a cabo. “não perceberemos, enquanto desfrutamos de nossas vidas cotidianas, que o custo de nossa negligência poderá em breve causar a maior tragédia já vista na história da humanidade”, escreve logo no começo do primeiro capítulo da obra, “A Jornada no Espaço e no Tempo”.

Desde que ele elaborou a hipótese Gaia e a publicou em “Gaia: Um Novo Olhar Sobre a Vida na Terra”, nos anos 70, foram poucos os indícios de que a humanidade conseguirá reverter um cenário que se torna cada vez mais assustador. Talvez seja por isso que, aos 90 anos, ele pretende ser um dos primeiros civis a viajar ao espaço pela companhia Virgin Galatic, para “ver a Terra do alto antes que ela desapareça”.

Leia a seguir um trecho do capítulo citado de “Gaia: Alerta Final” :

A jornada no espaço e no tempo


[...] No Reino Unido, sobrou pouca terra para cultivo e para nos alimentar, mas nós e os refugiados poderemos, de qualquer forma, não ser capazes de o fazer, porque a maioria absoluta de nós é urbana, e praticamente ignora a vida além da cidade, não entendendo que todas as nossas vidas dependem dele. As visões tão íntegras e bem-intencionadas da União Europeia para “salvar o planeta” e promover o desenvolvimento sustentável com o uso apenas de energia “natural” poderiam ter funcionado em 1800, quando havia apenas um bilhão de seres humanos no mundo, mas agora não podemos nos dar a esse luxo. De fato, à sua própria maneira, a ideologia verde que agora parece inspirar o norte da Europa e os Estados Unidos poderá, afinal, ser tão prejudicial ao meio ambiente real quanto o foram as ideologias humanistas anteriores. Se o governo do Reino Unido persistir em forçar os esquemas dispendiosos e nada práticos da energia renovável, em breve descobriremos que quase tudo o que resta da nossa região rural será usado para a produção de biocombustível, geradores de biogás e parques eólicos de escala industrial - tudo isto no exato momento em que precisaremos de todo o campo existente para o cultivo de alimentos. Não se sinta culpado por optar por essa bobagem: um exame mais profundo revela que ela é um elaborado embuste criado pelo interesse de algumas nações cujas economias se enriquecem a curto prazo pela venda de turbinas eólicas, usinas de biocombustível e outros equipamentos energéticos supostamente verdes. Não acredite por um momento sequer na conversa de vendedor de que isso salvará o planeta. A conversa mole dos vendedores tem a ver com o mundo que eles conhecem, o mundo urbano. A Terra real não precisa ser salva. Pôde, ainda pode e sempre será capaz de se salvar, e agora está começando a fazê-lo, mudando para um estado bem menos favorável a nós e outros animais. O que as pessoas querem dizer com o apelo é “salvar o planeta como o conhecemos”, e isso agora é impossível.

Acho improvável que um dano grave possa decorrer do uso em pequena escala de biocombustíveis produzidos a partir de resíduos agrícolas, óleo de cozinha reciclado ou uma modesta colheita de algas oceânicas. Entretanto, os cultivos de cana-de-açúcar, beterraba, milho, colza e outras plantas unicamente para a produção de combustível é quase certamente o ato mais danoso de todos. O problema com a espécie humana é que, como disse William James, “o homem nunca tem o bastante sem ter em demasia”. Uma vez que o combustível seja utilizado para manter nossos carros e caminhões em movimento, tentaremos cultivá-lo globalmente,com consequências estarrecedoras. Para ter uma ideia da escala já envolvida, consideremos a legislação sobre energia promulgada em 2007 nos Estados Unidos, que prevê cerca de 170 bilhões de dólares para refinarias de biocombustível e infraestrutura. Brent Erikson, da Organização das Indústrias de Biotecnologia, disse que “estamos no ponto onde estávamos nos anos 1850, quando o querosene foi destilado pela primeira vez”, e também que a nova lei exige a produção de 3,8 bilhões de litros de combustível etanol obtidos de grão de milho até 2022. Fica evidente pelas declarações de Erikson, pelo que está acontecendo agora no Brasil e pelas intenções dos europeus, que os biocombustíveis não são uma indústria artesanal inócua qualquer: são grandes empreendimentos, como de hábito. Quanto tempo levará até nos tornarmos dependentes de biocombustível para mover nossos carros e caminhões?

Os Estados Unidos entendem a ameaça do aquecimento global? Poucos duvidariam de que, no presente momento, os Estados Unidos sejam a nação mais destacada em termos de ciência e invenção - e não há maior prova disso que o computador que está sobre todas as nossas mesas e que, no mínimo, realiza o trabalho outrora feito por um datilógrafo. Os Estados Unidos tiveram um papel importante em sua evolução. Como se não bastasse, temos os pousos na Lua, a exploração de Marte e as frotas de satélites assombrosamente complexos, desde o telescópio Hubble até aqueles que lhe informam exatamente onde você se encontra em qualquer lugar do mundo. Tudo isso e muito mais é um tributo ao know-how americano e sua atitude dinâmica. Mesmo a teoria de Gaia foi descoberta no fértil ambiente do Laboratório de Propulsão a Jato da Califórnia, e o único biólogo que a entendeu e continuou a desenvolvê-la foi a destacada cientista americana Lynn Margulis. Obviamente, avanços em ciência e tecnologia emergiram na Europa na Idade Média e seu centro de excelência se moveu entre as nações. Em tecnologia e teoria computacionais, Babbage, Ada Lovelace e o mais trágico entre os homens, Alan Turing, fizeram, todos, o trabalho de base aqui, no Reino Unido. Turing foi aquele que, com seu grupo, construiu o primeiro aparelho computacional sério e o utilizou para decifrar o código inquebrável dos nossos inimigos de tempo de guerra. Mas isso foi naquela época. Agora, os Estados Unidos são o centro da ciência.

Faço este elogio solene aos Estados Unidos da América por estar perplexo: apesar de sua excelência científica, eles, entre todas as nações, foram os mais lentos em perceber a ameaça do aquecimento global. Duvido que essa ignorância inesperada tenha alguma ligação com o fato de o uso per capita americano de combustível fóssil, uma fonte de dano climático, ser maior que em qualquer outro lugar. Considero-a mais uma consequência de a maioria dos cientistas americanos, à sua maneira francamente bem-sucedida e reducionista, considerar a Terra algo que eles poderiam melhorar ou controlar; parece que eles a veem como nada mais que uma bola de rocha umedecida pelos oceanos e situada dentro de uma tênue esfera de ar. Até parece que consideram Marte um planeta a ser desenvolvido quando a Terra não for mais habitável. Não veem a Terra como um planeta vivo que regula a si próprio.

Eles não enxergam isso porque a Terra foi colonizada pela vida há pelo menos 3,5 bilhões de anos, sendo sua temperatura e a composição de sua superfície definidas pelas preferências de quaisquer que tenham sido os organismos que formavam a biosfera. Isso foi verdadeiro no frio das eras glaciais, é verdadeiro agora e será verdadeiro no calor da era escaldante que em breve virá. É claro que a física e a química do ar são importantes para compreender o clima, mas o gerente dos climas é e sempre foi Gaia, o sistema Terra do qual faz parte a biosfera. O erro desastroso da ciência do século XX foi partir do pressuposto de que tudo que precisamos saber sobre o clima pode se originar da criação de um modelo físico e químico do ar nos computadores cada vez mais potentes e, então, supor que a biosfera simplesmente reage passivamente à mudança, em vez de perceber que ela está ao volante. Por termos reconhecido a liderança dos Estados Unidos na ciência, a maior parte do mundo aceitou que sua concepção equivocada fosse verdadeira. Quase tarde demais, os cientistas mais importantes do mundo inteiro estão percebendo que observações e medições reais refutam a concepção do século XX, que vê a Terra como um recurso passivo. Pode ser boa o bastante para as previsões do tempo, mas não para prever o clima das décadas que estão por vir.

A qualidade dos cientistas profissionais individuais nos Estados Unidos é inigualável e são eles que estão observando com exatidão o ambiente global: os nomes de Ralph Keeling e Susan Solomon vêm imediatamente à minha mente, mas existem muitos outros no mesmo nível na Nasa, na Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, National Oceanic and Atmospheric Administration) e nos departamentos científicos universitários. Os Estados Unidos também se redimem por meio das vigorosas mensagens de Al Gore, Jim Hansen e Steve Schneider. Suas palavras nos tornam todos cientes de quão sério é o aquecimento global, mas, com exceção de E. O. Wilson, Stephen Schneider, Robert Charlson e outros poucos geocientistas, a maioria absoluta se retrairá diante do difícil conceito de uma Terra viva. Nossas respostas e ações corretas para prevenir o pior- ou, mais provavelmente, escapar dele - ainda exigem que a ciência abrace esse conceito e abandone as ideias estéreis da corrente dominante das ciências da Terra e da vida. Uma mudança de visão está surgindo nos Estados Unidos e poderá restabelecer sua liderança nessa parte vital da ciência.

Talvez os cientistas devessem ser recrutados para servir, como foi feito na Segunda Guerra Mundial e com isso não quero dizer algo que lembre apenas o Projeto Manhattan. No Reino Unido, houve uma mudança tectônica nas atitudes de cientistas durante a Segunda Guerra Mundial. Bem me lembro de ser entrevistado para meu primeiro emprego como um recém-graduado em junho de 1941 no Instituto Nacional de Pesquisas Médicas (National Institute for Medical Research), na época em Hampstead. O entrevistador era o diretor do instituto, Sir Henry Dale; era também presidente da Royal Society e ganhador do Prêmio Nobel. Era um homem gentil e de inteligência fenomenal, com modos bem diretos. Algumas das primeiras palavras que ele me disse foram: “Deixe de lado todos os pensamentos de fazer ciência aqui - a ciência está suspensa enquanto durar a guerra; tudo que temos a oferecer são problemas ad hoc que precisam ser resolvidos hoje ou, melhor, ontem.” Ele então acrescentou: “Depois da guerra, voltaremos à ciência real, e a espera terá valido a pena.” Obviamente, Sir Henry estava errado. A guerra foi um campo fértil para a ciência real quando a lenta e corriqueira pesquisa dos tempos de paz foi colocada de lado. Achei a ciência em tempo de guerra apaixonante e estimulante, e quando a paz chegou fiquei consternado com o retorno da busca de engrandecimento pessoal e da perda do senso de deslumbramento que tanto desfigura a ciência moderna. Lembremos que a penicilina foi inicialmente desenvolvida durante a guerra e todo o conceito de antibióticos nasceu ali.

Lembremos também, ao usarmos o micro-ondas, que o magnétron em seu centro foi inventado por Boot e Randal na década de 1940 para melhorar o radar em tempo de guerra. A pesquisa de radar levou diretamente à radioastronomia e uma nova compreensão do universo. Na Alemanha, as pressões para invenção em tempo de guerra levaram von Braun a desenvolver os foguetes que foram a base da ciência espacial, que agora nos permite aceitar com naturalidade os satélites que orbitam a Terra e considerar a exploração planetária por veículos robóticos um luxo ao nosso alcance.

Políticos do mundo desenvolvido reconhecem a mudança climática, mas suas políticas ainda estão no século XX, fundamentadas nos conselhos de lobistas dos ambientalistas e daqueles da comunidade empresarial, que enxergam um enorme lucro no curto prazo vindo de planos energéticos subsidiados. Eles raramente parecem agir sob as recomendações de seus consultores científicos. Em Bali, líderes políticos acordaram em cortar as emissões de carbono em 60% até 2050. De onde é que eles tiraram a ideia de que poderiam fazer uma política para um mundo com mais de quarenta anos de antecedência? É improvável que políticas baseadas em extrapolação injustificável e dogmas ambientais evitem a mudança climática, e não deveríamos sequer tentar implementá-las. Em vez disso, nossos líderes deveriam se concentrar imediatamente na sustentação de suas próprias nações como um habitat viável; poderiam ser inspirados a fazê-lo não apenas por causa de um interesse nacional egoísta, mas como capitães dos botes salva-vidas que suas nações poderiam vir a ser. No início de 2008, o governo do Reino Unido finalmente anunciou um programa para a construção de novas centrais energéticas nucleares. Certamente espero que essa não seja outra das falsas promessas que caracterizaram tantas das eloquentes declarações do governo Blair. Energia nuclear é, de longe, o meio mais efetivo de reduzir a emissão de dióxido de carbono, mas não é esse o motivo mais importante para que rivalizemos com a França e passemos a produzir eletricidade a partir de urânio. O importante é que as cidades exigem um fornecimento constante e econômico de eletricidade que até recentemente veio do carvão e do gás, mas esses recursos estão agora em declínio e não deixam nenhuma alternativa além da energia nuclear. As megacidades que estão começando a emergir demandarão enormes fluxos de eletricidade e somente uma vigorosa e rápida expansão da energia nuclear poderá satisfazê-los num futuro próximo. Essa necessidade se intensifica por termos pouca terra para cultivar alimentos - e a agricultura intensiva exige energia abundante. Com o esgotamento do petróleo, precisaremos sintetizar combustível para a maquinaria móvel de construção, transporte e agricultura. Não é algo difícil de fazer a partir do carvão ou da energia nuclear, mas precisamos começar a nos preparar para isso agora. Poderemos até ter de considerar a síntese direta de alimento a partir de dióxido de carbono, nitrogênio, água e cultura de células.

Haverá um dilúvio de desinformação antienergia nuclear por parte das empresas de energia cuja lucratividade será ameaçada e até de nações que verão seu poder e influência diminuídos. Não acredite em mentiras como aquela que diz que a construção de uma nova fonte de energia nuclear leva de dez a quinze anos. Os franceses precisam de menos de cinco anos para tal e não há nenhum motivo pelo qual deveríamos levar mais, se evitarmos o tempo excessivo gasto nas agências de planejamento, nas salas de tribunal e em audiências públicas. Espero que o movimento verde e seus advogados não mantenham a equivocada oposição à energia nuclear. Boa parte dessa oposição é irracional e fundamentada numa concatenação insustentável de erros e desinformações amplificada pela mídia. Seria bom se jornalistas e editores moderassem o desejo de contar uma história apavorante com a realidade de que, sem um amplo suprimento de energia nuclear, a vida em nossas ilhas poderá, em uma ou duas décadas, declinar a um estado de escassez. Por terem colocado a humanidade em primeiro lugar, e negligenciado Gaia, são muitos os verdes que plantaram as sementes de sua própria destruição e, se persistirem, também a nossa; para mitigar o erro, eles poderiam desistir da tática que tem como fim retardar a energia nuclear. Mais importante, eles estariam então ajudando a impulsionar o bote salva-vidas e não sabotando, como agora, o motor.

É absurdo pensar que nós, no Reino Unido, podemos alterar a resposta da Terra a nosso favor pelo uso de energia eólica ou voltaica solar. Um parque eólico de vinte turbinas de 1 megawatt exige mais de 10 mil toneladas de concreto. Seriam necessários duzentos desses parques eólicos cobrindo uma área do tamanho do Parque Nacional de Dartmoor, que tem cerca de 950 quilômetros quadrados, para se equiparar ao rendimento constante de energia de uma única central energética nuclear ou de carvão. Mais absurdo ainda: seria necessário construir uma central energética nuclear ou de carvão totalmente funcional para cada um desses monstruosos parques eólicos a fim de alimentar as turbinas durante 75% do tempo em que o vento fosse demasiado alto ou baixo. Como se isso não bastasse para condenar a energia eólica, a construção de um parque eólico de 1 gigawatt usaria uma quantidade de concreto de 2 milhões de toneladas, suficiente para construir uma cidade para 100 mil pessoas viverem em 30 mil lares; a fabricação e o emprego dessa quantidade de concreto lançariam cerca de 1 milhão de toneladas de dióxido de carbono no ar. Para sobrevivermos como nação civilizada, nossas cidades precisam de um abastecimento seguro, garantido e constante de eletricidade que somente o carvão, o gás ou a energia nuclear podem proporcionar. E somente com a energia nuclear poderemos ter a garantia de um suprimento constante de combustível. Já vimos quão vulneráveis são os suprimentos de gás com relação à duradoura integridade dos dutos, talvez de 1,6 mil quilômetros de comprimento, e à agressiva política dos autocratas. O carvão é caro no Reino Unido e as importações não são garantidas. Parques eólicos são absolutamente inadequados para o Reino Unido como fonte de energia e, como já sugeri, pouco podem fazer para impedir o aquecimento global, mesmo quando usados numa escala global; além disso, a experiência na Europa Ocidental mostra que são fontes dispendiosas e ineficazes de eletricidade. Você em breve descobrirá isso quando as contas e impostos sobre eletricidade aumentarem para pagar a energia renovável de que não precisamos. Seu dinheiro proverá os lucros fáceis a ser sacados do escoadouro dos subsídios. Essas contas nos são impostas para que políticos possam parecer verdes e bons, e algumas nações europeias enriqueçam. Não fazem nada pela Terra e só contribuirão para aumentar o estresse de nossa ilha-nação e, talvez, levá-la ao colapso final.

A resposta mais frequente dos meus amigos verdes à inflexível mensagem do meu último livro foi: “Você não pode dizer coisas assim. Não deixa espaço para nenhuma esperança.” Parece ter sido uma boa crítica, que ajudou a esclarecer minha mente e me permitiu entender por que dizem que mensageiros têm vida curta. Percebi que tinha dito muito sobre a catástrofe iminente, mas quase nada sobre como poderíamos tentar garantir nossa presença duradoura na Terra, dando aos nossos descendentes uma chance no mundo quente que em breve poderá chegar. Somos a elite inteligente entre a vida animal na Terra e, quaisquer que sejam nossos erros, Gaia precisa de nós.

Essa declaração pode parecer estranha depois de tudo que eu disse sobre o modo como os seres humanos do século XX tornaram-se quase um organismo patológico planetário. Mas Gaia levou 3,5 bilhões de anos para desenvolver um animal capaz de pensar e comunicar os próprios pensamentos. Se formos extintos, ela terá poucas chances de desenvolver outro. Aprofundarei esse pensamento mais adiante.

Quando sou advertido de que meu pessimismo desestimula aqueles que melhorariam sua pegada de carbono ou fariam bons trabalhos como plantar árvores, lamento que eu considere que tais tentativas são, na melhor das hipóteses, bobagem romântica, ou, na pior, hipocrisia. Hoje existem agências que permitem que os passageiros aéreos plantem árvores para compensar o dióxido de carbono que seu avião adiciona ao ar sobrecarregado. Têm a mesma função das indulgências outrora vendidas pela Igreja Católica aos pecadores ricos para compensar o tempo que de outra forma passariam no purgatório. Trinta anos atrás, fui insensato e plantei 20 mil árvores, na esperança de restituir à natureza a propriedade rural que tinha comprado. Percebo agora que foi um erro: deveria ter deixado a terra intocada e permitido que emergisse um ecossistema, uma floresta natural, repleta de vida biodiversa e abundante, no próprio ritmo de Gaia. Em vez de uma mera plantação, uma floresta assim poderia evoluir, ou morrer se preciso, à medida que o clima mudasse. Plantar uma árvore não produz um ecossistema da mesma forma que colocar um fígado numa jarra com sangue e nutrientes não produz um homem.

Espero que o ótimo livro “Os senhores do clima”, de Tim Flannery, e meu último livro, “A vingança de Gaia”, tenham alcançado parte de seu propósito. Ambos pretenderam funcionar como alertas, como aquele grito ouvido no passado pelos donos de pub: “Últimos pedidos. Está na hora, cavalheiros!” - um aviso de que, em breve, as portas se fechariam e que poderíamos ser lançados às condições climáticas do lado de fora. Espero que um número suficiente de nós esteja agora ciente de que o mundo exuberante e confortável que conhecemos no passado foi embora para sempre. Mas temo que continuemos a sonhar e, em vez de despertar, inserimos o som do despertador dentro de nossos sonhos.

Talvez, por sermos tão adaptáveis, não estejamos cientes da velocidade com que o mundo está mudando. Se a temperatura média no Reino Unido em janeiro for 7°C, temos a sensação de frio a maior parte do tempo e nos agasalhamos nas manhãs geladas quando sopra um deprimente vento noroeste. Resmungamos: onde está o aquecimento global agora? No verão, a média é de 20°C em julho e desfrutamos uma semana com temperaturas máximas de 30°C, mas grunhimos se cair a 15°C por um mesmo período. Ainda assim, há apenas vinte anos, essas temperaturas de inverno e de verão teriam sido registradas como anormalmente quentes para essas épocas do ano. A precipitação pluvial nos condados orientais do Reino Unido sempre foi baixa, na faixa de 500 milímetros por ano, mas a zona rural sempre foi exuberante e verde, porque permanecia fresca durante o verão. Em comparação, o Arizona, que tem uma precipitação pluviométrica semelhante, é quase inteiramente cerrado e deserto simplesmente por ser bem mais quente e pelo fato de a chuva que cai secar inteiramente ou escorrer para dentro dos canais antes que as plantas possam aproveitá-la. Nosso condado mais ao sudeste, Kent, já está com escassez crescente de água, e o sul da Europa é agora quase um deserto. A adaptação, como animais individuais, não é tão difícil: quando uma tribo muda das regiões temperadas para as tropicais, leva apenas algumas gerações para que os indivíduos se tornem mais escuros à medida que a seleção elimina os de pele clara. Também é assim com todos nós: nosso mundo mudou para sempre, e teremos de nos adaptar a muito mais que a mudança climática. Mesmo durante meu tempo de vida, o mundo encolheu em relação àquele que era bastante vasto para fazer da exploração uma aventura e incluía muitos lugares distantes onde ninguém tinha jamais caminhado. Agora, tornou-se quase uma cidade interminável, encravada numa agricultura intensiva, mas domesticada e previsível. Em breve, poderá reverter novamente a uma selva. Para sobreviver nesse novo mundo, precisamos de uma filosofia Gaiana e precisamos nos preparar para combater um chefe militar bárbaro disposto a nos capturar e a se apoderar de nosso território.

Exceto por uma eventual inundação desastrosa, onda de calor excessiva ou temperatura congelante inteiramente inesperada, o clima no Reino Unido mudará lenta e imperceptivelmente no início. Pessoas em cidades como Londres esquecerão que, mesmo nos dias de bonança não muito distantes, o ar-condicionado quase nunca era necessário no verão, enquanto meu colega Gari Owen me lembra que Londres em 2006 usou mais energia para esfriar que para aquecer. Em curto prazo, não é provável que aconteça aqui algo muito exagerado com o clima, algo que instigasse uma rebelião. O que poderia fazê-lo são as consequências desastrosas da elevação do nível do mar, levando à destruição de uma grande cidade ou ao colapso do abastecimento de alimentos ou eletricidade. Esses perigos serão agravados pelo fluxo sempre crescente de refugiados climáticos, ao qual se somará o fluxo de repatriados que deixaram o Reino Unido por aquilo que imaginaram que seria uma vida agradável na Europa. Os perigos mais graves não provêm da mudança climática em si, mas indiretamente da fome, disputa por espaço e recursos e guerra tribal.

Em um pequeno grau, a difícil situação dos britânicos em 1940 lembra o estado do mundo civilizado agora. Naquela época, tínhamos quase uma década da crença bem-intencionada, mas inteiramente equivocada, de que a paz era tudo o que importava. Os seguidores dos lobistas da paz dos anos 1930 eram parecidos com os movimentos verdes agora; as intenções eram mais que boas, mas inteiramente impróprias para a guerra que estava prestes a começar. A falha fundamental dos lobistas verdes de agora se revela no próprio nome Greenpeace; por aglutinarem o humanismo dos movimentos pela paz com o ambientalismo, eles inconscientemente antropomorfizam Gaia. Está na hora de despertar e perceber que Gaia não é nenhuma mãe acolhedora que acalenta os seres humanos e que pode ser aplacada por gestos como comércio de carbono ou desenvolvimento sustentável. Gaia, mesmo que façamos parte dela, sempre dita os termos da paz. Em maio de 1940, despertamos para descobrir, encarando-nos do outro lado do canal da Mancha, uma força continental inteiramente hostil prestes a nos invadir. Estávamos sozinhos, sem nenhum aliado efetivo, mas tivemos a sorte de ter um novo líder, Winston Churchill, cujas palavras comoventes sacudiram a nação inteira de sua letargia: “Nada tenho a oferecer, senão sangue, trabalho duro, lágrimas e suor.” Precisamos de um outro Churchill agora, que nos tire do pensamento insistente, acomodado e consensual de fins do século XX e una a nação num esforço resoluto de travar uma guerra difícil. Precisamos de um líder que instigue todos nós, mas especialmente atice aqueles jovens ativistas verdes que tão bravamente protestaram contra todas as formas de profanação dos campos. Onde estão os batalhões de “Terra acima de tudo” e para onde foram Swampy* e seus amigos?

O que mais me comoveu quando escrevia este livro é o pensamento de que nós, seres humanos, somos importantes em termos vitais como parte de Gaia, não através do que somos agora, mas pelo nosso potencial como espécie para sermos os progenitores de um animal muito melhor. Gostemos ou não, somos agora seu coração e mente; mas, para continuarmos a melhorar esse papel, teremos de garantir nossa sobrevivência como espécie civilizada e não retroceder a um aglomerado de tribos guerreiras, que foi um estágio de nossa história evolutiva. Fico emocionado com a ideia de que o sistema Terra, Gaia, tem mais de um quarto da idade do universo e que tudo isso para que evoluísse uma espécie capaz de pensar, comunicar e guardar pensamentos e experiências. Como parte de Gaia, nossa presença começa a tornar o planeta mais consciente. Deveríamos estar orgulhosos de poder fazer parte desse gigantesco passo, aquele que poderá ajudar Gaia a sobreviver enquanto o Sol continua seu lento mas inevitável aumento da produção de calor, fazendo do sistema solar um ambiente futuro cada vez mais hostil. Temos de fazer tudo que pudermos, e o Capítulo 5 trata das ideias que agora circulam entre cientistas e engenheiros que poderiam reverter a mudança climática. São, até agora, inexperientes, inseguros e possivelmente perigosos, um pouco como a medicina e cirurgia do século XIX. Se conseguirmos manter a civilização viva durante todo este século, talvez exista uma chance de que nossos descendentes algum dia sirvam Gaia e a auxiliem na autorregulação delicadamente ajustada do clima e da composição do nosso planeta.

Desfrutamos 12 mil anos de paz climática desde a última mudança da era glacial para a interglacial. Não demorará muito e poderemos nos defrontar com uma devastação de alcance planetário pior até que uma guerra nuclear ilimitada entre superpotências. A guerra climática poderia matar quase todos nós e deixar os poucos sobreviventes com um padrão de vida comparável ao da Idade da Pedra. Mas em vários lugares do mundo, inclusive no Reino Unido, temos uma chance de sobreviver e, até mesmo, de viver bem. Para que isso seja possível teremos, neste momento, de deixar nossos botes salva-vidas em condições de enfrentar o mar. Mesmo que algum evento natural, como uma série de grandes erupções vulcânicas ou um decréscimo da radiação solar, nos dê uma trégua, ainda assim terá sido melhor gastar nosso dinheiro e nossos esforços tornando nossos países autossuficientes em alimentos e energia e, se quisermos nos tornar inteiramente urbanos, então, na criação de cidades nas quais tenhamos orgulho em viver.

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Fonte: Folha Online