Prazeres virtuais: muitos jovens preferem buscar o prazer na web ao invés da política. Mas, até quando?
Uma das razões para o sucesso eleitoral de Barack Obama foi a brilhante extensão da sua campanha até os jovens usuários de internet. O uso incansável de blogs e redes sociais ajudaram a provocar agitação, incentivar doações e ganhar votos, além de aumentar a consciência política na América como um todo.
Isso foi um marco na história política da rede. Mas, os efeitos transformadores - e libertadores - dos meios de comunicação modernos têm sido menos surpreendentes em sociedades mais pobres do que a América: países com regimes autoritários e costumes rígidos têm, até recentemente, dado aos seus jovens muito pouco espaço para tais manobras.
A pergunta na cabeça de muitos críticos é: como os jovens, expostos a fatos, pontos de vista, sons e a uma gama de interlocutores - muitas vezes sem o controle dos pais - , utilizarão o acesso à internet? Eles tentarão mudar o mundo, ou simplestemente procurarão divertimento?
Há tantas evidências da segunda opção que seus adeptos inventaram uma nova palavra para definí-la: “cyber-hedonismo”. Para o horror dos idealistas, os jovens parecem, em muitos países, desistir das lutas políticas iniciadas pelas gerações anteriores e optar por uma espécie de “nirvana digital”,divertindo-se com um grande estoque de filmes, músicas, mensagens instantâneas e, claro, “oportunidades sexuais”. Um aspecto interessante do cyber-hedonismo é que, comparado à política, ele está menos apto a atrair a atenção das autoridades.
Os passatempos eletrônicos para jovens vão desde os mais inocentes até os “mortalmente perigosos”. Na Nigéria, um best-seller dá dicas aos jovens de como “tocar o coração através de mensagens de texto inesquecíveis”. Jovens indianos têm um gosto especial por sites de casamento, onde procuram um bom par (recém-casados que desejam visitar lugares famosos durante a lua-de-mel, como o Taj Mahal, poderiam, ao invés disso, realizar viagens virtuais…). Nos países asiáticos mais ricos, como a Coréia do Sul ou Singapura, a paixão dos jovens pelas apostas online freqüentemente se transforma em vício.
O cyber-hedonismo, é claro, não substitui a paquera ou encontros sexuais reais, mas parece remover alguns obstáculos. No Chile, surgiu entre os jovens o “movimento Pokémon”: adolescentes com cortes de cabelo estranhos se juntam para trocar beijos - ou algo mais. Tudo isso - bem como as atividades de outros jovens mais conservadores - é organizado eletronicamente.
Na China, dois terços daqueles que participaram de uma pesquisa de opinião concordam que é possível manter um relacionamento apenas na virtualidade (em comparação, só um quinto dos norte-americanos partilham dessa mesma idéia). A outra parcela de chineses vai além: uma médica que orienta adolescentes grávidas por telefone em Shangai diz que metade das ligações que recebe são de garotas que conheceram seus parceiros através da internet.
Em muitos países, o acesso à pornografia é o principal fator que atrai jovens do sexo masculino ao universo online. Alguém que esteja frequentando pela primeira vez alguma lan house no Sudeste asiático quase sempre se supreende ao constatar que a clientela local é formada unicamente de homens, que atabalhoadamente tentam proteger as telas dos computadores da vista do público. Os donos dessas lan houses sabem o que está acontecendo, mas entendem que ser linha dura pode levá-los à falência. Na ultra-conservadora Arábia Saudita, a maioria das mensagens trocadas por celular entre adolescentes têm conteúdo pornográfico.
Líderes políticos e instituições religiosas vivem um dilema com o crescimento do cyber-hedonismo: eles devem seguir os passos dos jovens na rede ou tentar em vão atraí-los para longe do computador?
Na Ásia, muitos políticos tentam lucrar com o hedonismo online, apresentando-se como devotos. Na última eleição em Taiwan, candidatos brigaram para aparecer na internet, mostrando-se simpáticos à juventude. Um deles chegou a contratar como porta-voz um integrante de banda de heavy-metal e postar uma série de anúncios no You Tube.
Nos países em desenvolvimento, e com regimes autoritários, como Rússia e China, a tolerância oficial ao cyber-hedonismo tem sido uma espécie de pacto oferecido pelas autoridades: “Nós deixamos você se divertir, de muitas e novas maneiras, se você esquecer a política”. Mas, agora, com a economia em crise, os jovens vão manter a sua parte do acordo?
Retirado de The Economist”/Traduzido e adaptado por Navii Blog