Thursday, September 9, 2010

Archive for the ‘Clipping’ Category

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Uma das piores tragédias ambientais envolvendo petróleo na história, o vazamento da plataforma controlada pela BP (British Petroleum) no golfo do México chegou ao 50° dia ainda sem solução e com um saldo ainda incalculável dos estragos causados à natureza. De acordo com a estimativa oficial do governo norte-americano, o vazamento de óleo varia de 12 mil a 25 mil barris diários, volume que equivale a aproximadamente uma piscina olímpica de petróleo derramada no golfo do México por dia.

Apesar dos números, ainda não há consenso entre os especialistas sobre a eficácia dos planos de contenção do vazamento e a quantidade de óleo derramada por dia efetivamente. Na segunda-feira (7), por exemplo, cerca de 11 mil barris de petróleo estavam sendo capturados, enquanto algo entre 12 mil e 25 mil barris seguiam vazando.

O governo dos Estados Unidos já admitiu que o trabalho de mitigação dos efeitos do vazamento na natureza do golfo do México pode levar anos. A mancha de petróleo se desintegra em muitos pedaços, e isso faz o óleo se espalhar por uma área maior. Mesmo que o vazamento seja contido em poucas semanas, os trabalhos de retenção da mancha à deriva na região podem durar até o início de dezembro, avaliam especialistas.

Nesta terça, novas informações trouxeram mais um alerta sobre a dimensão da tragédia: o governo e pesquisadores confirmaram que manchas de óleo dispersas se espalharam muito abaixo da superfície do oceano a partir do vazamento, levantando novas preocupações sobre o impacto do acidente sobre a vida de espécies marítimas.

Quanto já vazou

Melhor cenário

Pior cenário

109 milhões de litros

449 milhões de litros

43,6 piscinas olímpicas

179,6 piscinas olímpicas

Em coletiva na Casa Branca, em Washington, o chefe da Guarda Costeira dos Estados Unidos, almirante Thad Allen, disse que levará alguns meses para limpar a mancha de petróleo da superfície do Golfo, mas que o trabalho de limpeza dos pântanos e outros habitats afetados pelo vazamento poderá levar anos.

Questionado sobre a taxa diária de vazamento, Allen afirmou que a partir do momento em que a BP capturar mais petróleo, o governo será capaz de oferecer melhores estimativas do desastre como um todo.

“Essa é a grande incógnita que estamos tentando desvendar com números exatos”, disse. “E nós vamos divulgar esses números assim que descobrirmos. Não estamos querendo abaixá-los ou aumentá-los. Eles são o que são”, completou.

Segundo Kent Wells, executivo da BP envolvido na ação de contenção do vazamento, mais de 27 mil barris de óleo já foram recolhidos da natureza até agora.

Variação de números

O sucesso do dispositivo de contenção lançou novas dúvidas sobre as estimativas oficiais do vazamento, desenvolvidas por uma equipa nomeada pelo governo de Obama. Em 27 de maio, a equipe realizou diversas análises e chegou ao resultado de 12 mil a 19 mil barris por dia.

Esse valor alcançado foi de 2 a 4 vezes maior do que a primeira estimativa do governo, que apontava para 5 mil barris diários. Dias depois, os cientistas chegaram a uma nova conclusão, ampliando a margem de variação até onde conhece-se hoje, que é de 25 mil barris por dia.

Poluição submarina

Cientistas afirmaram que grandes faixas de petróleo não se integraram à maré negra que cobre a superfície de parte do golfo do México e se mantêm circulando no fundo do mar, uma situação que pode ser devastadora para o ecossistema submarino da região.

“Amostras de água retiradas da região e analisadas por especialistas mostraram extensas faixas de petróleo em profundidades entre 50 e 1.400 metros”, disse à AFP o oceanógrafo Yonggang Liu, da Universidade do Sul da Flórida (USF, na sigla em inglês).

“Esse petróleo em águas profundas é invisível para os satélites”, disse Liu, da Escola de Ciências Marinhas da USF, que integra uma equipe de especialistas de várias entidades especializadas que acompanham a circulação do vazamento na superfície e debaixo d’água.

O fato de se manter oculto não faz com que seja menos nocivo, ao contrário, já que torna quase impossível limpá-lo e combater seus efeitos, afirmaram especialistas.

“É uma questão de lógica ver que o ecossistema em águas profundas do Golfo vai ser afetado (…). O impacto pode ser muito grande em toda a cadeia alimentar, em espécies de peixes sensíveis e em pequenas criaturas do oceano”, acrescentaram.

Fonte:Do UOL Notícias*

May East: Para ativar um discurso é preciso vivê-lo!

Posted by admin On abril - 25 - 2010

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A senhora ficou conhecida por sua trajetória musical. Em que momento surgiu o interesse pela militância ecológica?

Toda a minha trajetória desde a juventude teve duas dimensões: reflexão e ação. A música que eu fazia carregava níveis de reflexão e, na medida em que fui caminhando na vida, me engajei em vários movimentos sociais, a banda foi um deles. Comecei com movimento antimilitar, depois antinuclear, depois eu fui feminista política – o que naquela época era um movimento anti-homem.

O movimento ambientalista foi só uma continuação de uma série de movimentos. A música me levou para a Grã-Bretanha, onde eu me aprofundei na questão dos assentamentos humanos sustentáveis. Há 18 anos moro numa ecovila.

O que é exatamente uma ecovila?

É um laboratório de novas relações humanas com o entorno. Nós avançamos a agenda de sustentabilidade ao construir as casas ecologicamente, ao reduzir a própria energia, trazer a saúde de volta para as mãos da ecovila. A agenda da sustentabilidade é multifacetada, envolve os aspectos ecológico, social e econômico.

Nós consumimos metade do que qualquer britânico consome e geramos metade do lixo e temos uma altíssima qualidade de vida. Como laboratório, a gente mostra que redesenhar nossas vidas de quantidade para qualidade não precisa ser doloroso, podemos viver com menos.

Se todos nós tivéssemos o padrão norte-americano de vida, precisaríamos de quatro planetas e meio.

O petróleo continua sendo um grande propulsor da economia mundial, a exemplo da intenção norte-americana de expandir a exploração no continente e do Brasil, com a camada pré-sal...

A exploração de petróleo é uma questão de tempo, e nós temos diante de nós duas opções. Ou vamos redesenhar uma mudança ou vamos ser vítimas da mudança. Se continuarmos baseando nossa cultura na exploração de petróleo, vamos emitir mais carbono do que podemos.

Mesmos se parássemos hoje, o planeta já esquentaria de 1,8° C a 4° C. Devemos desenhar essa transição, do contrário, os nossos netos vão lembrar de nós como aquela geração que só pensou em consumir mais e mais.

O ser humano é cada vez mais dependente da tecnologia, quando adquire um aparelho mais avançado descarta o anterior. Como é possível desacelerar essa tendência “natural” de consumo?

O tecnológico tem um lugar na nossa sociedade, mas ele tem que ser combinado com a qualidade humana, com “escutar” aqueles bolsões de biodiversidade que ainda guardam a memória da criação do mundo.

A tecnologia ainda tem um lugar, mas ela tem de ser menos nociva.

Exemplos? Com a ecovila, nós geramos toda a nossa energia. Como? Com tecnologia. Toda a eletricidade é gerada por moinhos de vento, temos uma fábricas de painéis solares. Toda nossa água quente vem da energia do sol.

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Quais bens não são gerados na ecovila?

Nós não somos uma ilha, compramos lâmpadas, carros. Mas nós tentamos olhar como o consumo local pode apoiar a economia local. Ao invés de comprar num grande supermercado, num Carrefour da vida, cujo lucro vai para a França, você tenta comprar do fazendeiro local, porque o dinheiro vai circular regionalmente.

A questão da biodiversidade está muito ligada à localização dos recursos, das atividades. É cada bairro, cada cidade em transição começar a olhar para dentro e se perguntar como pode apoiar a economia local, circular o dinheiro internamente, ao invés de comprar mais barato sabendo que o dinheiro vai embora. A grande discussão do momento é resiliência, não sustentabilidade, essa capacidade de continuar funcionando na medida em que o sistema entra em choque ou se descontrola. É o que a gente imagina que vai acontecer.

Já aconteceu há um ano e meio na Europa. A Grã-Bretanha teve sua maior recessão mesmo depois da Segunda Guerra. A única indústria que cresceu foi a indústria das sementes, porque as pessoas relembraram a possibilidade de começar a transformar seus jardins ornamentais em jardins comestíveis. Isso é resiliência, você começar a resolver as questões mais localmente e para suas necessidades básicas.

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Mas Como é possível pensar numa ecovila em Salvador, onde há bolsões de pobreza, invasões em áreas de risco vulneráveis à chuva?   Como pensar em ecobairros num lugar onde não há as mínimas condições de saneamento básico?

É por aí que nós temos que começar.

Os ecobairros vão ter que se instalar nessas comunidades, onde já existe uma teia de solidariedade. As tecnologias das ecovilas são de baixíssimo custo. Em Londres, nós temos, hoje em dia, bairros de transição, que nasceram independentes e hoje fazem uma rede com outros bairros.

Uma coisa que basta é o P da participação.

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Como os ecobairros poderiam sobreviver diante da violência urbana?

Eu acredito que a violência não é causa, é sintoma. A causa é a (ausência de) educação, disparidade social, falta de oportunidade. Os jovens precisam ter outras opções que não a do banditismo. Não é uma fórmula fácil, mas é possível.

Salvador tem inúmeros problemas de transporte público, de alagamentos na chuva. Nossos rios estão sendo tapados com concreto por falta de uma política eficiente de despoluição das bacias fluviais. Quanto tempo seria suficiente para tornar a cidade sustentável?

Dez anos, dependendo dos atores locais, (num movimento) de baixo para cima e de cima para baixo. Para isso, é preciso necessidade e vontade.

A necessidade está clara, veja o que aconteceu no Rio de Janeiro, não precisamos nem de evidência científica. Desastres naturais vão começar a acontecer cada vez mais.

Filmes como Avatar abordam questões como não-agressão ao meio ambiente e uma convivência harmoniosa com a natureza. Quem a senhora acredita que “banca” esses projetos em H o l l y wo o d ?

A consciência ecológica está emergindo no planeta sem um dirigente.

Ela nasce como se fosse tema imunológico de uma humanidade despertando num trem-bala a mais de 500 km/hora em direção ao abismo.

Ela emerge em Hollywood, em Findhorn ou num ecobairro.

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Fonte: Revista Muito - 25.04.2010

Jornal A Tarde - Salvador

O lixo (nem tão) escondido das festas de Salvador

Posted by Navii On março - 9 - 2010

Afinal, quem vai limpar a sujeira nas próximas? A indústria de bebidas?


Mergulho de quatro nadadores revela vários descasos. O primeiro, com a natureza, com a saúde do planeta. O segundo, com o direito à informação.  Vários veículos da imprensa foram procurados pelos profissionais, em vão.  O tema, óbvio, muito delicado, iria constranger os grandes anunciantes. Iria constranger, de lambuja, os governos municipal e estadual.

Bem ali, diante de todos, a” alegria” aspeada mergulha suas sobras sob o tapete da Barra.

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No início, tudo  festa e geladíssimas.


Depois, os alegres, os festivos  mergulhos de latas.


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A Barra, em Salvador, parece limpa por fora. Mas por dentro é suja como pau de galinheiro.

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Por Bernardo Mussi

Dez dias após o carnaval, resolvi mergulhar com dois amigos na área do Farol da Barra para confirmar a notícia de que havia uma quantidade absurda de lixo espalhada pelo fundo do mar naquela área.

Mesmo com a água um pouco suja por causa das chuvas do dia anterior, logo identificamos o local. Na verdade o lixo não estava espalhado, mas concentrado em um canal provavelmente em razão do movimento das marés. Uma cena lamentável! Eram pelo menos mil e quinhentas latinhas metálicas e garrafas plásticas.
Da superfície o visual parecia com as imagens áreas que vemos dos blocos de carnaval durante a festa momesca. Só que ao invés de estarem pulando, dançando e se beijando ao som frenético e ensurdecedor dos trios elétricos, os foliões do fundo do mar estavam rolando de um lado para o outro numa mórbida coreografia, empurrados silenciosamente pelo balanço do mar, sem dança, sem alegria, sem vida e sem poesia.

Assustados, decidimos não retirar o material naquele dia na esperança de tentar sensibilizar algum veículo de comunicação para fazer uma matéria com imagens subaquáticas. A intenção era compartilhar aquela agressão carnavalesca com nossa população e os donos da folia.

Fizemos contato com pelo menos três emissoras e todas pediram que enviássemos e-mails com fotos, o que fizemos imediatamente. Aguardamos respostas por dois dias e como não tivemos qualquer retorno, optamos por retirar o lixão de lá para evitar maiores danos.

A bem da verdade estávamos super desconfortáveis com nossas consciências por termos testemunhado aquela cena e deixado para resolver o problema dias após. Mas tínhamos que tentar a matéria para que a ação não se resumisse somente à coleta do material.

Tínhamos em mente que a repercussão sensibilizaria os empresários e artistas do carnaval, os órgão públicos, a imprensa, as empresas financiadoras e nossa gente. A tentativa foi boa, mas não rolou…

Fomos então, no terceiro dia após o primeiro mergulho, retirar o material. Antes, porém, fiz questão de chamar um amigo que tem uma caixa estanque para filmarmos a ação e guardarmos o documentário visando trabalhos futuros e até mesmo a matéria que queríamos na TV.

Sem cilindro de ar e contando apenas com duas pranchas de SUP (Stand Up Paddle) e alguns sacos grandes, éramos quatro mergulhadores ousados retirando do fundo do mar tudo o que podíamos naquela tarde.

Pouco antes de o sol se pôr conseguimos finalmente colocar todo o lixo na calçada.
Muitos curiosos, inclusive turistas, olhavam intrigados a nossa atitude e a todo o instante nos questionavam sobre a origem daquele resíduo. A resposta estava na ponta da língua: Carnaval!

Vou logo informando aos amigos leitores que não sou contra o carnaval, muito pelo contrário, sou fã por diversos motivos, mas acho que a realidade da festa não guarda a menor relação com as belíssimas cenas, as informações rasgadas de elogios e a excessiva euforia amplamente divulgada pela mídia.


Sei que o comprometimento com os patrocinadores e aquela velha guerrinha de vaidades contra os carnavais de outros estados como Pernambuco e Rio de Janeiro, acabam conspirando para isso. Mas vejo aí um modelo cansado, super dimensionado, sem inovações socialmente positivas e remando na direção oposta ao desenvolvimento sustentável da nossa cidade.


Aquele lixo submarino é um pequeno sinal deste retrocesso. Pior, patrocinado solidariamente pelos grandes empresários, artistas e principalmente pelo poder público que tem o dever de melhorar nossa segurança, nossa saúde e educação.

Aproveito o embalo para incluir indignação semelhante sobre os eventos realizados na praia do Porto da Barra durante o verão.
O “Música no Porto” e o “Espicha Verão” não tem trazido nada de bom para nossa cidade, além da oportunidade de vermos ótimos artistas de perto e de graça. De resto, o lixo, o mau cheiro, a degradação ambiental, o xixi pelas ruas, a impressionante quantidade de ambulantes amontoados por todos os espaços públicos e a agressão aos patrimônios históricos, são um grande “pé na bunda” do turista de qualidade.

É o mesmo que olhar para uma bela maçã com a casca brilhante e aspecto suculento, porém, apodrecida por dentro…
Naquele final de tarde acabamos contemplando um por do sol diferente. O monte de lixo empilhado na calçada do Farol da Barra virou atração. E como Deus é grande, fomos brindados com a presença de valorosos catadores de rua para finalizar a limpeza.

Desta ação, além das ótimas imagens documentadas em vídeo, resta rezar para que os donos do carnaval, dos eventos no Porto da Barra e nossos queridos foliões se toquem que algo tem que mudar.

O fundo do mar não merece aquele bloco reluzente e, ao contrário do asfalto, o oceano costuma revidar violentamente as agressões sofridas.
Não tem alegria alguma no fundo da folia!

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Fotos: Francisco Pedro / Projeto Lixo Marinho - Global Garbage Brasil
Fotos do Espicha Verão: Manuela Cavadas e Luciano da Matta / Agência A Tarde

Outros artigos de Bernardo Mussi
Carnaval longe da praia
O lixão precisa de música


Dia Internacional da Mulher

Posted by Navii On março - 8 - 2010

dia-internacional1Por que essa data é comemorada no dia 8 de março?

Luciana Taddeo

Há mais de uma versão para a origem do Dia Internacional da Mulher, mas todas remetem a greves de trabalhadoras de fábricas têxteis desde a Revolução Industrial, no século 19. Em 8 de março de 1857, tecelãs de Nova York realizaram uma marcha por melhores condições de
trabalho, diminuição da carga horária e igualdade de direitos. Na época, a jornada de trabalho feminino chegava a 16 horas diárias, com salários até 60% menores que os dos homens.

Além disso, muitas sofriam agressões físicas e sexuais. Uma das versões do desfecho da marcha é a de que as manifestantes teriam sido trancadas na fábrica pelos patrões, que atearam fogo no local, matando cerca de 130 mulheres. O fim mais aceito, porém, é o da interrupção da passeata pela polícia, que dispersou a multidão com violência. A versão do incêndio é, provavelmente, uma confusão com a tragédia da fábrica Triangle Shirtwaist Company, em 25 de março de 1911. O fogo matou mais de 150 mulheres, com idades entre 13 e 25 anos, na maioria imigrantes italianas e judias.

A falta de medidas de segurança do local - as portas teriam sido trancadas para evitar a saída das empregadas - foi apontada como o motivo do alto número de mortes. O episódio foi um marco na história do trabalho operário americano e está registrado no Fire Almanac (”Almanaque do Fogo”), publicado pela Agência Nacional de Proteção contra Incêndio dos Estados Unidos. No livro, não há qualquer referência ao tal incêndio de 1857. Vários protestos se seguiram nos 8 de março seguintes. Um dos mais notáveis - também reprimido pela polícia - ocorreu em 1908, quando 15 mil operárias protestaram por seus direitos.

Em 1910, na Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, na Dinamarca, a alemã Clara Zetkin propôs que a data fosse usada para comemorar as greves americanas e homenagear mulheres de todo o mundo. A greve das trabalhadoras de Petrogrado (atual São Petersburgo), na Rússia, em 23 de fevereiro de 1917 (8 de março no calendário ocidental), também foi um marco da data. Hoje, ela é símbolo da luta pelos direitos da mulher, e foi oficializada pela Unesco em 1977.

Incêndio em fábrica de Nova York, em 1911, matou mais de 150 mulheres

Há mais de uma versão para a origem do Dia Internacional da Mulher, mas todas remetem a greves de trabalhadoras de fábricas têxteis desde a Revolução Industrial, no século 19. Em 8 de março de 1857, tecelãs de Nova York realizaram uma marcha por melhores condições de
trabalho, diminuição da carga horária e igualdade de direitos. Na época, a jornada de trabalho feminino chegava a 16 horas diárias, com salários até 60% menores que os dos homens.

Além disso, muitas sofriam agressões físicas e sexuais. Uma das versões do desfecho da marcha é a de que as manifestantes teriam sido trancadas na fábrica pelos patrões, que atearam fogo no local, matando cerca de 130 mulheres. O fim mais aceito, porém, é o da interrupção da passeata pela polícia, que dispersou a multidão com violência. A versão do incêndio é, provavelmente, uma confusão com a tragédia da fábrica Triangle Shirtwaist Company, em 25 de março de 1911. O fogo matou mais de 150 mulheres, com idades entre 13 e 25 anos, na maioria imigrantes italianas e judias.

A falta de medidas de segurança do local - as portas teriam sido trancadas para evitar a saída das empregadas - foi apontada como o motivo do alto número de mortes. O episódio foi um marco na história do trabalho operário americano e está registrado no Fire Almanac (”Almanaque do Fogo”), publicado pela Agência Nacional de Proteção contra Incêndio dos Estados Unidos. No livro, não há qualquer referência ao tal incêndio de 1857. Vários protestos se seguiram nos 8 de março seguintes. Um dos mais notáveis - também reprimido pela polícia - ocorreu em 1908, quando 15 mil operárias protestaram por seus direitos.

Em 1910, na Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, na Dinamarca, a alemã Clara Zetkin propôs que a data fosse usada para comemorar as greves americanas e homenagear mulheres de todo o mundo. A greve das trabalhadoras de Petrogrado (atual São Petersburgo), na Rússia, em 23 de fevereiro de 1917 (8 de março no calendário ocidental), também foi um marco da data. Hoje, ela é símbolo da luta pelos direitos da mulher, e foi oficializada pela Unesco em 1977.

Fonte: Planeta Sustentável


Mídia social não é pirlimpimpim

Posted by Navii On fevereiro - 26 - 2010

Por Helcio Brasileiro, palestrante do Comnexu, no próximo dia 6.


Hoje mais cedo retuitei o vídeo ao lado. Aproveitei uma hora do almoço bem tranquila para assistir quase todo. Faltando 10 minutos, tive que abandonar.

O documentário é legal. Pros ansiosos, não chega a ter muita novidade. O time regido pela torcida ou a rede social de empréstimos financeiros lembram muito o conteúdo do Wikinomics. Mas que saco: quem disse que temos que consumir apenas o que é novo o tempo todo? Seria enlouquecedor. É legal revisitar o termo “redes sociais” de uma maneira mais abrangente, sem ser apenas “aproxime-se de seu cliente”. Imaginar formas de gestão pública ou privada que sejam participativas de verdade é sem dúvida animador.

O ponto que quero chegar é que depois que se passou a falar de “mídia social”, este termo virou um clichê tão chato e vazio quanto qualquer outro. Até mesmo porque quando você entrar no Twitter, por exemplo, a impressão é que tem muito mais gente vendendo do que comprando. Minha impressão é que o fenômeno que há poucos anos aconteceu em SP se reproduz por diversos estados. Um certo deslumbramento, uma metalinguagem sem fim - em qualquer sentido. Todo mundo quer abocanhar o tal filé da mídia social, exibindo um cardápio repetido e nem sempre exequível.

Não quero desestimular nem falar mal de ninguém. Acho ótimo que exista um clima de empolgação, que mais gente se interesse e difunda o assunto. O que me incomoda é que muitos de nós, que deveríamos zelar por catequizar o mercado, estamos agora bancando os profetas com solução pra tudo. Tenho visto uns pacotes prontos de mídia social que são de vomitar. Já recebi visita de gente vendendo “rede social igual à do Obama”. Ainda tem quem ache que tudo gire em torno exclusivamente de tecnologia. Em outros casos vende-se uma apresentação cheia de velhas novidades e terminologias em inglês, e depois se joga um coitado lá na cova das leões para fazer o trabalho que deveria ser de uma equipe. Claro que não funciona - mas há quem ache que o imporante é que o (mau) serviço tenha sido vendido.

Não existe remédio perfeito produzido com mídias sociais - nem com nada. Embora não seja meu negócio no momento, é algo que acompanho e acredito há uns anos. O desafio é como chegar ao mercado deixando um pouco de lado o oba-oba, adequado à realidade, principalmente de mercados mais frágeis como o nosso, em Fortaleza. Isso depende de diversos fatores. Como disse a gerente de e-marketing da Roche para a América Latina, Ronízia Moura, “web não e barato”.

Claro que se você for comparar de forma absoluta com uma campanha de mídia tradicional, talvez a impressão seja a contrária. Mas se você pensar que um projeto de mídia social exige um prazo normalmente mais extenso, que o relacionamento se dá todos os dias, não apenas quando você dispara algo, que você compartilha o processo com todos da rede, que diferentes formas de monitoramento, aí a coisa muda de figura. Planejar uma campanha de mídia social demanda sim tempo e um investimento considerável, se você quiser retorno de verdade. Este papo de “baratinho” é também um mercado real, mas cá entre nós, faça a gentileza de deixá-lo para os sobrinhos dos empresários sem horizontes.

Não tenho a menor dúvida da eficácia quando bem feita, mas por favor, vamos entender a importância da mídia social dentro de um planejamento de comunicação, e levar o processo a sério em todas as suas etapas, não achar que é algo que se resolve com pirlimpimpim. A gente está muito atrasado para nos perdermos em verniz. A responsabilidade por fazer o mercado acreditar em mídia social é de quem deseja trabalhar com isso. O mercado anunciante de cidades como Fortaleza ainda vê este tipo de estratégia como bijuteria. Está na hora das pessoas que de fato entendem do assunto começarem a mostrar a cara para não dar espaço aos oportunistas que já começam a aparecer. Boa sorte a todos.

Fonte: http://www.fundamentalconteudo.com/?p=690

Comnexu  - Organizações sem fins lucrativos e a nova era da comunicação.

www.comnexu.net

Planeta não suporta ritmo atual de consumo de carnes e pescado

Posted by Navii On fevereiro - 24 - 2010
Um chinês consumia 13,7 kg de carne por ano, em 1980. Hoje come  59,5 kg. Nos paises desenvolvidos, chega a 80 kg por ano. No atual ritmo, a totalidade das espécies comerciais haverá desaparecido em 2050.

  • Nos países desenvolvidos, o consumo de carne chega a 80 kg per capita

No topo absoluto da cadeia alimentar, os seres humanos se dão ao luxo de comer de tudo, mas a um preço elevado: a pesca massiva está levando as espécies marinhas à extinção, e a piscicultura polui a água, o solo e a atmosfera - o que precisa fazer com que mudemos de hábitos.

Alimentar a humanidade - nove bilhões de indivíduos até 2050, segundo as previsões da ONU - exigirá uma adaptação de nosso comportamento, sobretudo nos países mais ricos, que precisarão ajudar os países em desenvolvimento.

Segundo um relatório da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), publicado nesta quinta-feira, a produção mundial de carne deverá dobrar para atender à demanda mundial, chegando a 463 milhões de toneladas por ano.

Um chinês que consumia 13,7 kg de carne em 1980, por exemplo, hoje come em média 59,5 kg por ano. Nos países desenvolvidos, o consumo chega a 80 kg per capita.

“O problema é como impedir que isso aconteça. Quando a renda aumenta, o consumo de produtos lácteos e bovinos segue o mesmo caminho: não há exemplo em contrário no mundo”, destacou Hervé Guyomard, diretor científico em Agricultura do Instituto Nacional de Pesquisa Agrônima da França (INRA), responsável pelo relatório Agrimonde sobre “os sistemas agrícolas e alimentares mundiais no horizonte de 2050″.

Atualmente, a agricultura produz 4.600 quilocalorias por dia e por habitante, o suficiente para alimentar seis bilhões de indivíduos.

Deste total, no entanto, 800 se perdem no campo (pragas, insetos, armazenamento), 1.500 são dedicadas à alimentação dos animais - que só restituem em média 500 calorias na mesa - e 800 são desperdiçadas nos países desenvolvidos.

Por outro lado, o gado custa caro ao meio ambiente: 8% do consumo de água, 18% das emissões de gases causadores do efeito estufa (mais que os transportes) e 37% do metano (que colabora para o aquecimento do clima 21% mais que o CO2) emitido pelas atividades humanas.

E, mesmo que seja fonte essencial de proteínas, a carne bovina não é “rentável” do ponto de vista alimentar: “são necessárias três calorias vegetais para produzir uma caloria de carne de ave, sete para uma caloria de porco e nove para uma caloria bovina”, explicou Guyomard.

Desta maneira, mais de um terço (37%) da produção mundial de cereais serve para alimentar o gado - 56% nos países ricos - segundo o World Ressources Institute.

Seria o caso, então, de reduzir o consumo de carne e substitui-lo pelo peixe?

Os oceanos não podem ser considerados uma despense inesgotável, estimou Philippe Cury, diretor de pesquisas do Instituto de Pesquisas para o Desenvolvimento (IRD).

O número de pescaodres é duas a três vezes superior à capacidade de reconstituição das espécies.

No atual ritmo, a totalidade das espécies comerciais haverá desaparecido em 2050.

Por Anne Chaon, em Paris
Fonte:  AFP UOL

Decrescimento sustentável: crescer é mesmo necessário?

Posted by Navii On janeiro - 29 - 2010

Professor emérito da Universidade Paris XI, o economista francês Serge Latouche lança ousada tese para reduzir a devastação dos recursos naturais do planeta. Ele defende a “descolonização do nosso imaginário”.

As idéias do economista e filósofo francês Serge Latouche se chocam com o estilo de vida dos habitantes das grandes cidades do mundo. Professor emérito da Faculdade de Economia da Universidade Paris XI e do Instituto de Estudos do Desenvolvimento Econômico e Social (Iedes), Latouche – nascido em Vannes, em 1940 – critica vorazmente o crescimento econômico promovido pelos estados. Defende com ardor uma suposta “descolonização” do nosso imaginário e uma mudança de comportamento mais ativa para salvar o planeta do esgotamento de recursos naturais. O ritmo anda acelerado e estamos consumindo demais, acredita o pensador, que construiu nas últimas décadas toda uma crítica contra a ocidentalização do mundo. Latouche é um dos principais portavozes do movimento pelo decrescimento. Tem vários livros e artigos publicados sobre o tema, inclusive no Brasil. Mas, apesar da visão aparentemente trágica, assume-se como um otimista e acredita na vontade da juventude de viver num mundo melhor.

Como o senhor define o decrescimento sustentável? Criamos esse slogan em 2002 para ir de encontro ao que todos falavam na época sobre o crescimento sustentável. Era preciso marcar uma ruptura radical, porque o crescimento não é durável. Por isso, nós buscamos esta palavra provocadora: decrescimento. O crescimento pelo crescimento ninguém acha absurdo. Então o decrescimento força as pessoas a pensar: “O que isso quer dizer?” Quando falamos em decrescimento, falamos em sair de uma religião do crescimento ligada à economia e ao progresso.

É possível alterar essa lógica? O relatório do Clube de Roma de 1972 já dizia que uma sociedade de crescimento não era sustentável. Muitos sociólogos e filósofos mostraram que ela não era nem mesmo desejada. Como as ameaças se aproximam, torna-se mais visível. O projeto de uma sociedade de decrescimento não é uma alternativa, e sim a libertação de uma ditadura econômica para reinventar um futuro sustentável. Uma sociedade não pode sobreviver se não respeitar os limites dos recursos naturais. Eu proponho um ciclo virtuoso do decrescimento: reavaliar, reconceitualizar, reestruturar, redistribuir, relocalizar, reutilizar e reciclar. Os dois primeiros termos são importantes para colocar em questão os valores comuns em nosso imaginário. Reconceitualizar é mudar nossa maneira de pensar. É uma verdadeira revolução cultural.

Mas como iniciar a mudança? Precisamos renunciar a essa atitude predadora, ter uma mudança de atitude mental. Não somente um com portamento individual e sim o produto de um sistema. Muita gente já está convencida de que não é preciso destruir todas as espécies para ganhar mais. Entretanto, são forçados pela lógica do mercado, pela concorrência e pelo marketing. Vamos então mudar de programa para depois trocar de computador. Alterar a base de produção e torná-la mais adequada às necessidades do meio ambiente. Buscar a reutilização, a reciclagem

Nosso ritmo está muito acelerado? Absolutamente. É necessário dar um basta ao consumo excessivo. Não é somente uma ação individual – porque, se apenas reduzo meu consumo, isso não mudará muito. Temos que mudar o modo de produzir as coisas. Você pode comer um bife em que o gado é criado em pastos naturais ou um bife de uma fazenda que obedece à lógica de mercado. No último caso, você come petróleo. Ele incorpora 6 litros de petróleo. Como isso é possível? O gado é alimentado com a soja que é plantada na Amazônia. Os tratores destroem as florestas, fazem a plantação e despejam os pesticidas. Tudo isso é petróleo. Devemos colocar esse sistema em causa, e não o fato de comermos um bife.

Seremos realmente mais felizes se consumirmos menos? O consumo traz cada vez menos a felicidade. Vários indícios provam isso. Muitos estudos apontam para o aumento de suicídios e a utilização de antidepressivos. O estresse tornou-se um problema grave em nossa sociedade. Mas ao mesmo tempo somos viciados nesse estilo de vida. Necessitamos de uma terapia.

O mercado de produtos orgânicos indica uma mudança de comportamento? Aqui na França, as grandes cadeias de supermercados já têm uma linha própria de produtos orgânicos e provenientes do comércio responsável. Essa tomada de consciência é importante porque um dos aspectos destrutivos do meio ambiente é a agricultura produtivista. Tudo o que seja uma alternativa a isso é benéfico. A produção familiar e sem pesticidas é uma das condições para um futuro sustentável.

Mudar a matriz energética pode ser uma das vias de solução? Como dizia a ministra do Meio Am biente da República Checa: “Quando há uma inundação no banheiro, você pode secar com um pano de chão”. O que eu faço de imediato é fechar a torneira. Enquanto não decidirmos limitar o consumo de energia, todas as soluções de energia renovável não servirão para muita coisa. A primeira coisa a fazer é fechar a torneira.

A geração de agora é capaz de fazer essa transformação? Em teoria, ela deveria ser menos capaz. Ela já está mais pervertida. O grande problema está na educação. Quais crianças deixaremos no mundo? Como nós deixamos às nossas crianças um mundo estragado, nós deixamos também para o mundo uma geração pervertida. Apesar de tudo, ainda há uma luz de esperança. Vejo uma participação crescente de jovens no movimento pelo decrescimento sustentável em vários países da Europa. Eles se organizam, tomam iniciativas. Eles querem viver num mundo melhor, salvar a humanidade e o planeta.

E qual seria então a mensagem do decrescimento? A mensagem não é somente reduzir o excesso de consumo e os danos ecológicos, mas também reduzir a quantidade de trabalho. Não é trabalhar menos para ganhar mais. É trabalhar menos para que todos possam trabalhar e viver melhor. Assim, teremos mais tempo livre para gastar com coisas que realmente valem a pena. Escutar música, dançar, jogar, pensar ou mesmo não fazer nada. Mas, ao contrário, nós nos tornamos viciados no trabalho. Os americanos inventaram a palavra workaholic. Nós quase precisamos de um curso de desintoxicação para reaprender a viver. E, nesse ponto de vista, o decrescimento é uma arte de viver.

Fonte: Planeta Sustentável (www.planetasustentavel.abril.com.br)

29.01.2010

Clipping Navii.

O Haiti e a maldição branca

Posted by Navii On janeiro - 25 - 2010

No primeiro dia deste ano, a liberdade completou dois séculos de vida no mundo. Ninguém se inteirou disso, ou quase ninguém.


Por Eduardo Galeano*

O Haiti foi o primeiro país onde se aboliu a escravidão. Contudo, as enciclopédias mais conhecidas e quase todos os livros de escola atribuem à Inglaterra essa histórica honra. É verdade que certo dia o império que fora campeão mundial do tráfico negreiro mudou de idéia; mas a abolição britânica ocorreu em 1807, três anos depois da revolução haitiana, e resultou tão pouco convincente que em 1832 a Inglaterra teve de voltar a proibir a escravidão.

Nada tem de novo o menosprezo pelo Haiti. Há dois séculos, sofre desprezo e castigo. Thomas Jefferson, prócer da liberdade e dono de escravos, advertia que o Haiti dava o mau exemplo, e dizia que se deveria “confinar a peste nessa ilha”. Seu país o ouviu. Os Estados Unidos demoraram 60 anos para reconhecer diplomaticamente a mais livre das nações.

Por outro lado, no Brasil chamava-se de haitianismo a desordem e a violência. Os donos dos braços negros se salvaram do haitianismo até 1888. Nesse ano o Brasil aboliu a escravidão. Foi o último país do mundo a fazê-lo.

O Haiti voltou a ser um país invisível, até a próxima carnificina. Enquanto esteve nas TVs e nas páginas dos jornais, no início deste ano, os meios de comunicação transmitiram confusão e violência e confirmaram que os haitianos nasceram para fazer bem o mal e para fazer mal o bem.

Desde a revolução até hoje, o Haiti só foi capaz de oferecer tragédias. Era uma colônia próspera e feliz e agora é a nação mais pobre do hemisfério ocidental. As revoluções, concluíram alguns especialistas, levam ao abismo. E alguns disseram, e outros sugeriram, que a tendência haitiana ao fratricídio provém da selvagem herança da África. O mandato dos ancestrais. A maldição negra, que empurra para o crime e o caos.

Da maldição branca não se falou.

A Revolução Francesa havia eliminado a escravidão, mas Napoleão a ressuscitara:

- Qual foi o regime mais próspero para as colônias?

- O anterior.

- Pois, que seja restabelecido.

E, para substituir a escravidão no Haiti, enviou mais de 50 navios cheios de soldados. Os negros rebelados venceram a França e conquistaram a independência nacional e a libertação dos escravos.

Em 1804, herdaram uma terra arrasada pelas devastadoras plantações de cana-de-açúcar e um país queimado pela guerra feroz. E herdaram “a dívida francesa”. A França cobrou caro a humilhação imposta a Napoleão Bonaparte. Recém-nascido, o Haiti teve de se comprometer a pagar uma indenização gigantesca, pelo prejuízo causado ao se libertar. Essa expiação do pecado da liberdade lhe custou 150 milhões de francos-ouro.

O novo país nasceu estrangulado por essa corda presa no pescoço: uma fortuna que atualmente equivaleria a US$ 21,7 bilhões ou a 44 orçamentos totais do Haiti atualmente. Muito mais de um século demorou para pagar a dívida, que os juros multiplicavam. Em 1938, por fim, houve e redenção final.

Nessa época, o Haiti já pertencia aos brancos dos Estados Unidos.

Nem Bolívar

Em troca dessa dinheirama, a França reconheceu oficialmente a nova nação. Nenhum outro país a reconheceu. O Haiti nasceu condenado à solidão. Tampouco Simon Bolívar a reconheceu, embora lhe devesse tudo. Barcos, armas e soldados lhe foram dados pelo Haiti em 1816, quando Bolívar chegou à ilha, derrotado, e pediu apoio e ajuda.

O Haiti lhe deu tudo, com a única condição de que libertasse os escravos, uma idéia que até então não lhe havia ocorrido. Depois, o herói venceu sua guerra de independência e expressou sua gratidão enviando a Port-au-Prince uma espada de presente. Sobre reconhecimento, nem uma palavra.

Na realidade, as colônias espanholas que passaram a ser países independentes continuavam tendo escravos, embora algumas também tivessem leis que os proibia. Bolívar decretou a sua em 1821, mas, na realidade, não se deu por inteirada. Trinta anos depois, em 1851, a Colômbia aboliu a escravidão, e a Venezuela em 1854.

Em 1915, os fuzileiros navais desembarcaram no Haiti. Ficaram 19 anos. A primeira coisa que fizeram foi ocupar a alfândega e o escritório de arrecadação de impostos. O exército de ocupação reteve o salário do presidente haitiano até que este assinasse a liquidação do Banco da Nação, que se converteu em sucursal do City Bank de Nova York.

O presidente e todos os demais negros tinham a entrada proibida nos hotéis, restaurantes e clubes exclusivos do poder estrangeiro. Os ocupantes não se atreveram a restabelecer a escravidão, mas impuseram o trabalho forçado para as obras públicas.

E mataram muito. Não foi fácil apagar os fogos da resistência. O chefe guerrilheiro Charlemagne Péralte, pregado em cruz contra uma porta, foi exibido, para escárnio, em praça pública.

A missão civilizadora terminou em 1934. Os ocupantes se retiraram deixando no país uma Guarda Nacional, fabricada por eles, para exterminar qualquer possível assomo de democracia. O mesmo fizeram na Nicarágua e na República Dominicana. Algum tempo depois, Duvalier foi o equivalente haitiano de Somoza e Trujillo.

E, assim, de ditadura em ditadura, de promessa em traição, foram somando-se as desventuras e os anos. Aristide, o cura rebelde, chegou à presidência em 1991. Durou poucos meses. O governo dos Estados Unidos ajudou a derrubá-lo, o levou, o submeteu a tratamento e, uma vez reciclado, o devolveu, nos braços dos fuzileiros navais, à Presidência. E novamente ajudou a derrubá-lo, neste ano de 2004, e outra vez houve matança. E de novo os fuzileiros, que sempre regressam, como a gripe.

Entretanto, os especialistas internacionais são muito mais devastadores do que as tropas invasoras. País submisso às ordens do Banco Mundial e do Fundo Monetário, o Haiti havia obedecido suas instruções sem pestanejar. Eles o pagaram negando-lhe o pão e o sal.

Náufragos anônimos

Teve seus créditos congelados, apesar de ter desmantelado o Estado e liquidado todas as tarifas alfandegárias e subsídios que protegiam a produção nacional. Os camponeses plantadores de arroz, que eram a maioria, se converteram em mendigos ou emigrantes em balsas. Muitos foram e continuam indo parar nas profundezas do Mar do Caribe, mas esses náufragos não são cubanos e raras vezes aparecem nos jornais.

Agora, o Haiti importa todo seu arroz dos Estados Unidos, onde os especialistas internacionais, que é um pessoal bastante distraído, se esquecem de proibir as tarifas alfandegárias e os subsídios que protegem a produção nacional.

Na fronteira onde termina a República Dominicana e começa o Haiti, há um cartaz que adverte: o mau passo.

Do outro lado está o inferno negro. Sangue e fome, miséria, pestes…

Nesse inferno tão temido, todos são escultores. Os haitianos têm o costume de recolher latas e ferro velho e, com antiga maestria, recortando e martelando, suas mãos criam maravilhas que são oferecidas nos mercados populares.

O Haiti é um país jogado no lixo, por eterno castigo à sua dignidade. Ali jaz, como se fosse sucata. Espera as mãos de sua gente.

* Eduardo Galeano é escritor e jornalista uruguaio, autor de As Veias Abertas da América Latina e Memórias do Fogo.

Clipping Navii

Biocombustíveis são embuste, diz criador da hipótese Gaia

Posted by Navii On janeiro - 8 - 2010

james

Segundo James Lovelock, a conversa mole dos vendedores tem a ver com o mundo que eles conhecem, o mundo urbano. “A Terra real não precisa ser salva. Pôde, ainda pode e sempre será capaz de se salvar, e agora está começando a fazê-lo, mudando para um estado bem menos favorável a nós e outros animais. O que as pessoas querem dizer com o apelo é ’salvar o planeta como o conhecemos’, e isso agora é impossível”, registra o autor de Gaia: Alerta Final.


Energia eólica, biocombustíveis e outras tecnologias “verdes” parecem ser alguns dos melhores investimentos para minimizar as alterações climáticas e ajudar a deter o aquecimento global, certo? Não para um dos ambientalistas mais respeitados do mundo, James Lovelock.

Conhecido internacionalmente por ser o autor da chamada hipótese Gaia –que, resumidamente, considera o planeta Terra como sendo um superorganismo–, Lovelock afirma em seu livro “Gaia: Alerta Final” que algumas destas tecnologias não passam de “um elaborado embuste criado pelo interesse de algumas nações cujas economias se enriquecem a curto prazo pela venda de turbinas eólicas, usinas de biocombustível e outros equipamentos energéticos supostamente verdes”.

De acordo com ele, existem muitas coisas que podemos fazer para amenizar os problemas causados pelas mudanças no clima –no entanto, ele acredita ser muito pouco provável que realmente as levemos a cabo. “não perceberemos, enquanto desfrutamos de nossas vidas cotidianas, que o custo de nossa negligência poderá em breve causar a maior tragédia já vista na história da humanidade”, escreve logo no começo do primeiro capítulo da obra, “A Jornada no Espaço e no Tempo”.

Desde que ele elaborou a hipótese Gaia e a publicou em “Gaia: Um Novo Olhar Sobre a Vida na Terra”, nos anos 70, foram poucos os indícios de que a humanidade conseguirá reverter um cenário que se torna cada vez mais assustador. Talvez seja por isso que, aos 90 anos, ele pretende ser um dos primeiros civis a viajar ao espaço pela companhia Virgin Galatic, para “ver a Terra do alto antes que ela desapareça”.

Leia a seguir um trecho do capítulo citado de “Gaia: Alerta Final” :

A jornada no espaço e no tempo


[...] No Reino Unido, sobrou pouca terra para cultivo e para nos alimentar, mas nós e os refugiados poderemos, de qualquer forma, não ser capazes de o fazer, porque a maioria absoluta de nós é urbana, e praticamente ignora a vida além da cidade, não entendendo que todas as nossas vidas dependem dele. As visões tão íntegras e bem-intencionadas da União Europeia para “salvar o planeta” e promover o desenvolvimento sustentável com o uso apenas de energia “natural” poderiam ter funcionado em 1800, quando havia apenas um bilhão de seres humanos no mundo, mas agora não podemos nos dar a esse luxo. De fato, à sua própria maneira, a ideologia verde que agora parece inspirar o norte da Europa e os Estados Unidos poderá, afinal, ser tão prejudicial ao meio ambiente real quanto o foram as ideologias humanistas anteriores. Se o governo do Reino Unido persistir em forçar os esquemas dispendiosos e nada práticos da energia renovável, em breve descobriremos que quase tudo o que resta da nossa região rural será usado para a produção de biocombustível, geradores de biogás e parques eólicos de escala industrial - tudo isto no exato momento em que precisaremos de todo o campo existente para o cultivo de alimentos. Não se sinta culpado por optar por essa bobagem: um exame mais profundo revela que ela é um elaborado embuste criado pelo interesse de algumas nações cujas economias se enriquecem a curto prazo pela venda de turbinas eólicas, usinas de biocombustível e outros equipamentos energéticos supostamente verdes. Não acredite por um momento sequer na conversa de vendedor de que isso salvará o planeta. A conversa mole dos vendedores tem a ver com o mundo que eles conhecem, o mundo urbano. A Terra real não precisa ser salva. Pôde, ainda pode e sempre será capaz de se salvar, e agora está começando a fazê-lo, mudando para um estado bem menos favorável a nós e outros animais. O que as pessoas querem dizer com o apelo é “salvar o planeta como o conhecemos”, e isso agora é impossível.

Acho improvável que um dano grave possa decorrer do uso em pequena escala de biocombustíveis produzidos a partir de resíduos agrícolas, óleo de cozinha reciclado ou uma modesta colheita de algas oceânicas. Entretanto, os cultivos de cana-de-açúcar, beterraba, milho, colza e outras plantas unicamente para a produção de combustível é quase certamente o ato mais danoso de todos. O problema com a espécie humana é que, como disse William James, “o homem nunca tem o bastante sem ter em demasia”. Uma vez que o combustível seja utilizado para manter nossos carros e caminhões em movimento, tentaremos cultivá-lo globalmente,com consequências estarrecedoras. Para ter uma ideia da escala já envolvida, consideremos a legislação sobre energia promulgada em 2007 nos Estados Unidos, que prevê cerca de 170 bilhões de dólares para refinarias de biocombustível e infraestrutura. Brent Erikson, da Organização das Indústrias de Biotecnologia, disse que “estamos no ponto onde estávamos nos anos 1850, quando o querosene foi destilado pela primeira vez”, e também que a nova lei exige a produção de 3,8 bilhões de litros de combustível etanol obtidos de grão de milho até 2022. Fica evidente pelas declarações de Erikson, pelo que está acontecendo agora no Brasil e pelas intenções dos europeus, que os biocombustíveis não são uma indústria artesanal inócua qualquer: são grandes empreendimentos, como de hábito. Quanto tempo levará até nos tornarmos dependentes de biocombustível para mover nossos carros e caminhões?

Os Estados Unidos entendem a ameaça do aquecimento global? Poucos duvidariam de que, no presente momento, os Estados Unidos sejam a nação mais destacada em termos de ciência e invenção - e não há maior prova disso que o computador que está sobre todas as nossas mesas e que, no mínimo, realiza o trabalho outrora feito por um datilógrafo. Os Estados Unidos tiveram um papel importante em sua evolução. Como se não bastasse, temos os pousos na Lua, a exploração de Marte e as frotas de satélites assombrosamente complexos, desde o telescópio Hubble até aqueles que lhe informam exatamente onde você se encontra em qualquer lugar do mundo. Tudo isso e muito mais é um tributo ao know-how americano e sua atitude dinâmica. Mesmo a teoria de Gaia foi descoberta no fértil ambiente do Laboratório de Propulsão a Jato da Califórnia, e o único biólogo que a entendeu e continuou a desenvolvê-la foi a destacada cientista americana Lynn Margulis. Obviamente, avanços em ciência e tecnologia emergiram na Europa na Idade Média e seu centro de excelência se moveu entre as nações. Em tecnologia e teoria computacionais, Babbage, Ada Lovelace e o mais trágico entre os homens, Alan Turing, fizeram, todos, o trabalho de base aqui, no Reino Unido. Turing foi aquele que, com seu grupo, construiu o primeiro aparelho computacional sério e o utilizou para decifrar o código inquebrável dos nossos inimigos de tempo de guerra. Mas isso foi naquela época. Agora, os Estados Unidos são o centro da ciência.

Faço este elogio solene aos Estados Unidos da América por estar perplexo: apesar de sua excelência científica, eles, entre todas as nações, foram os mais lentos em perceber a ameaça do aquecimento global. Duvido que essa ignorância inesperada tenha alguma ligação com o fato de o uso per capita americano de combustível fóssil, uma fonte de dano climático, ser maior que em qualquer outro lugar. Considero-a mais uma consequência de a maioria dos cientistas americanos, à sua maneira francamente bem-sucedida e reducionista, considerar a Terra algo que eles poderiam melhorar ou controlar; parece que eles a veem como nada mais que uma bola de rocha umedecida pelos oceanos e situada dentro de uma tênue esfera de ar. Até parece que consideram Marte um planeta a ser desenvolvido quando a Terra não for mais habitável. Não veem a Terra como um planeta vivo que regula a si próprio.

Eles não enxergam isso porque a Terra foi colonizada pela vida há pelo menos 3,5 bilhões de anos, sendo sua temperatura e a composição de sua superfície definidas pelas preferências de quaisquer que tenham sido os organismos que formavam a biosfera. Isso foi verdadeiro no frio das eras glaciais, é verdadeiro agora e será verdadeiro no calor da era escaldante que em breve virá. É claro que a física e a química do ar são importantes para compreender o clima, mas o gerente dos climas é e sempre foi Gaia, o sistema Terra do qual faz parte a biosfera. O erro desastroso da ciência do século XX foi partir do pressuposto de que tudo que precisamos saber sobre o clima pode se originar da criação de um modelo físico e químico do ar nos computadores cada vez mais potentes e, então, supor que a biosfera simplesmente reage passivamente à mudança, em vez de perceber que ela está ao volante. Por termos reconhecido a liderança dos Estados Unidos na ciência, a maior parte do mundo aceitou que sua concepção equivocada fosse verdadeira. Quase tarde demais, os cientistas mais importantes do mundo inteiro estão percebendo que observações e medições reais refutam a concepção do século XX, que vê a Terra como um recurso passivo. Pode ser boa o bastante para as previsões do tempo, mas não para prever o clima das décadas que estão por vir.

A qualidade dos cientistas profissionais individuais nos Estados Unidos é inigualável e são eles que estão observando com exatidão o ambiente global: os nomes de Ralph Keeling e Susan Solomon vêm imediatamente à minha mente, mas existem muitos outros no mesmo nível na Nasa, na Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, National Oceanic and Atmospheric Administration) e nos departamentos científicos universitários. Os Estados Unidos também se redimem por meio das vigorosas mensagens de Al Gore, Jim Hansen e Steve Schneider. Suas palavras nos tornam todos cientes de quão sério é o aquecimento global, mas, com exceção de E. O. Wilson, Stephen Schneider, Robert Charlson e outros poucos geocientistas, a maioria absoluta se retrairá diante do difícil conceito de uma Terra viva. Nossas respostas e ações corretas para prevenir o pior- ou, mais provavelmente, escapar dele - ainda exigem que a ciência abrace esse conceito e abandone as ideias estéreis da corrente dominante das ciências da Terra e da vida. Uma mudança de visão está surgindo nos Estados Unidos e poderá restabelecer sua liderança nessa parte vital da ciência.

Talvez os cientistas devessem ser recrutados para servir, como foi feito na Segunda Guerra Mundial e com isso não quero dizer algo que lembre apenas o Projeto Manhattan. No Reino Unido, houve uma mudança tectônica nas atitudes de cientistas durante a Segunda Guerra Mundial. Bem me lembro de ser entrevistado para meu primeiro emprego como um recém-graduado em junho de 1941 no Instituto Nacional de Pesquisas Médicas (National Institute for Medical Research), na época em Hampstead. O entrevistador era o diretor do instituto, Sir Henry Dale; era também presidente da Royal Society e ganhador do Prêmio Nobel. Era um homem gentil e de inteligência fenomenal, com modos bem diretos. Algumas das primeiras palavras que ele me disse foram: “Deixe de lado todos os pensamentos de fazer ciência aqui - a ciência está suspensa enquanto durar a guerra; tudo que temos a oferecer são problemas ad hoc que precisam ser resolvidos hoje ou, melhor, ontem.” Ele então acrescentou: “Depois da guerra, voltaremos à ciência real, e a espera terá valido a pena.” Obviamente, Sir Henry estava errado. A guerra foi um campo fértil para a ciência real quando a lenta e corriqueira pesquisa dos tempos de paz foi colocada de lado. Achei a ciência em tempo de guerra apaixonante e estimulante, e quando a paz chegou fiquei consternado com o retorno da busca de engrandecimento pessoal e da perda do senso de deslumbramento que tanto desfigura a ciência moderna. Lembremos que a penicilina foi inicialmente desenvolvida durante a guerra e todo o conceito de antibióticos nasceu ali.

Lembremos também, ao usarmos o micro-ondas, que o magnétron em seu centro foi inventado por Boot e Randal na década de 1940 para melhorar o radar em tempo de guerra. A pesquisa de radar levou diretamente à radioastronomia e uma nova compreensão do universo. Na Alemanha, as pressões para invenção em tempo de guerra levaram von Braun a desenvolver os foguetes que foram a base da ciência espacial, que agora nos permite aceitar com naturalidade os satélites que orbitam a Terra e considerar a exploração planetária por veículos robóticos um luxo ao nosso alcance.

Políticos do mundo desenvolvido reconhecem a mudança climática, mas suas políticas ainda estão no século XX, fundamentadas nos conselhos de lobistas dos ambientalistas e daqueles da comunidade empresarial, que enxergam um enorme lucro no curto prazo vindo de planos energéticos subsidiados. Eles raramente parecem agir sob as recomendações de seus consultores científicos. Em Bali, líderes políticos acordaram em cortar as emissões de carbono em 60% até 2050. De onde é que eles tiraram a ideia de que poderiam fazer uma política para um mundo com mais de quarenta anos de antecedência? É improvável que políticas baseadas em extrapolação injustificável e dogmas ambientais evitem a mudança climática, e não deveríamos sequer tentar implementá-las. Em vez disso, nossos líderes deveriam se concentrar imediatamente na sustentação de suas próprias nações como um habitat viável; poderiam ser inspirados a fazê-lo não apenas por causa de um interesse nacional egoísta, mas como capitães dos botes salva-vidas que suas nações poderiam vir a ser. No início de 2008, o governo do Reino Unido finalmente anunciou um programa para a construção de novas centrais energéticas nucleares. Certamente espero que essa não seja outra das falsas promessas que caracterizaram tantas das eloquentes declarações do governo Blair. Energia nuclear é, de longe, o meio mais efetivo de reduzir a emissão de dióxido de carbono, mas não é esse o motivo mais importante para que rivalizemos com a França e passemos a produzir eletricidade a partir de urânio. O importante é que as cidades exigem um fornecimento constante e econômico de eletricidade que até recentemente veio do carvão e do gás, mas esses recursos estão agora em declínio e não deixam nenhuma alternativa além da energia nuclear. As megacidades que estão começando a emergir demandarão enormes fluxos de eletricidade e somente uma vigorosa e rápida expansão da energia nuclear poderá satisfazê-los num futuro próximo. Essa necessidade se intensifica por termos pouca terra para cultivar alimentos - e a agricultura intensiva exige energia abundante. Com o esgotamento do petróleo, precisaremos sintetizar combustível para a maquinaria móvel de construção, transporte e agricultura. Não é algo difícil de fazer a partir do carvão ou da energia nuclear, mas precisamos começar a nos preparar para isso agora. Poderemos até ter de considerar a síntese direta de alimento a partir de dióxido de carbono, nitrogênio, água e cultura de células.

Haverá um dilúvio de desinformação antienergia nuclear por parte das empresas de energia cuja lucratividade será ameaçada e até de nações que verão seu poder e influência diminuídos. Não acredite em mentiras como aquela que diz que a construção de uma nova fonte de energia nuclear leva de dez a quinze anos. Os franceses precisam de menos de cinco anos para tal e não há nenhum motivo pelo qual deveríamos levar mais, se evitarmos o tempo excessivo gasto nas agências de planejamento, nas salas de tribunal e em audiências públicas. Espero que o movimento verde e seus advogados não mantenham a equivocada oposição à energia nuclear. Boa parte dessa oposição é irracional e fundamentada numa concatenação insustentável de erros e desinformações amplificada pela mídia. Seria bom se jornalistas e editores moderassem o desejo de contar uma história apavorante com a realidade de que, sem um amplo suprimento de energia nuclear, a vida em nossas ilhas poderá, em uma ou duas décadas, declinar a um estado de escassez. Por terem colocado a humanidade em primeiro lugar, e negligenciado Gaia, são muitos os verdes que plantaram as sementes de sua própria destruição e, se persistirem, também a nossa; para mitigar o erro, eles poderiam desistir da tática que tem como fim retardar a energia nuclear. Mais importante, eles estariam então ajudando a impulsionar o bote salva-vidas e não sabotando, como agora, o motor.

É absurdo pensar que nós, no Reino Unido, podemos alterar a resposta da Terra a nosso favor pelo uso de energia eólica ou voltaica solar. Um parque eólico de vinte turbinas de 1 megawatt exige mais de 10 mil toneladas de concreto. Seriam necessários duzentos desses parques eólicos cobrindo uma área do tamanho do Parque Nacional de Dartmoor, que tem cerca de 950 quilômetros quadrados, para se equiparar ao rendimento constante de energia de uma única central energética nuclear ou de carvão. Mais absurdo ainda: seria necessário construir uma central energética nuclear ou de carvão totalmente funcional para cada um desses monstruosos parques eólicos a fim de alimentar as turbinas durante 75% do tempo em que o vento fosse demasiado alto ou baixo. Como se isso não bastasse para condenar a energia eólica, a construção de um parque eólico de 1 gigawatt usaria uma quantidade de concreto de 2 milhões de toneladas, suficiente para construir uma cidade para 100 mil pessoas viverem em 30 mil lares; a fabricação e o emprego dessa quantidade de concreto lançariam cerca de 1 milhão de toneladas de dióxido de carbono no ar. Para sobrevivermos como nação civilizada, nossas cidades precisam de um abastecimento seguro, garantido e constante de eletricidade que somente o carvão, o gás ou a energia nuclear podem proporcionar. E somente com a energia nuclear poderemos ter a garantia de um suprimento constante de combustível. Já vimos quão vulneráveis são os suprimentos de gás com relação à duradoura integridade dos dutos, talvez de 1,6 mil quilômetros de comprimento, e à agressiva política dos autocratas. O carvão é caro no Reino Unido e as importações não são garantidas. Parques eólicos são absolutamente inadequados para o Reino Unido como fonte de energia e, como já sugeri, pouco podem fazer para impedir o aquecimento global, mesmo quando usados numa escala global; além disso, a experiência na Europa Ocidental mostra que são fontes dispendiosas e ineficazes de eletricidade. Você em breve descobrirá isso quando as contas e impostos sobre eletricidade aumentarem para pagar a energia renovável de que não precisamos. Seu dinheiro proverá os lucros fáceis a ser sacados do escoadouro dos subsídios. Essas contas nos são impostas para que políticos possam parecer verdes e bons, e algumas nações europeias enriqueçam. Não fazem nada pela Terra e só contribuirão para aumentar o estresse de nossa ilha-nação e, talvez, levá-la ao colapso final.

A resposta mais frequente dos meus amigos verdes à inflexível mensagem do meu último livro foi: “Você não pode dizer coisas assim. Não deixa espaço para nenhuma esperança.” Parece ter sido uma boa crítica, que ajudou a esclarecer minha mente e me permitiu entender por que dizem que mensageiros têm vida curta. Percebi que tinha dito muito sobre a catástrofe iminente, mas quase nada sobre como poderíamos tentar garantir nossa presença duradoura na Terra, dando aos nossos descendentes uma chance no mundo quente que em breve poderá chegar. Somos a elite inteligente entre a vida animal na Terra e, quaisquer que sejam nossos erros, Gaia precisa de nós.

Essa declaração pode parecer estranha depois de tudo que eu disse sobre o modo como os seres humanos do século XX tornaram-se quase um organismo patológico planetário. Mas Gaia levou 3,5 bilhões de anos para desenvolver um animal capaz de pensar e comunicar os próprios pensamentos. Se formos extintos, ela terá poucas chances de desenvolver outro. Aprofundarei esse pensamento mais adiante.

Quando sou advertido de que meu pessimismo desestimula aqueles que melhorariam sua pegada de carbono ou fariam bons trabalhos como plantar árvores, lamento que eu considere que tais tentativas são, na melhor das hipóteses, bobagem romântica, ou, na pior, hipocrisia. Hoje existem agências que permitem que os passageiros aéreos plantem árvores para compensar o dióxido de carbono que seu avião adiciona ao ar sobrecarregado. Têm a mesma função das indulgências outrora vendidas pela Igreja Católica aos pecadores ricos para compensar o tempo que de outra forma passariam no purgatório. Trinta anos atrás, fui insensato e plantei 20 mil árvores, na esperança de restituir à natureza a propriedade rural que tinha comprado. Percebo agora que foi um erro: deveria ter deixado a terra intocada e permitido que emergisse um ecossistema, uma floresta natural, repleta de vida biodiversa e abundante, no próprio ritmo de Gaia. Em vez de uma mera plantação, uma floresta assim poderia evoluir, ou morrer se preciso, à medida que o clima mudasse. Plantar uma árvore não produz um ecossistema da mesma forma que colocar um fígado numa jarra com sangue e nutrientes não produz um homem.

Espero que o ótimo livro “Os senhores do clima”, de Tim Flannery, e meu último livro, “A vingança de Gaia”, tenham alcançado parte de seu propósito. Ambos pretenderam funcionar como alertas, como aquele grito ouvido no passado pelos donos de pub: “Últimos pedidos. Está na hora, cavalheiros!” - um aviso de que, em breve, as portas se fechariam e que poderíamos ser lançados às condições climáticas do lado de fora. Espero que um número suficiente de nós esteja agora ciente de que o mundo exuberante e confortável que conhecemos no passado foi embora para sempre. Mas temo que continuemos a sonhar e, em vez de despertar, inserimos o som do despertador dentro de nossos sonhos.

Talvez, por sermos tão adaptáveis, não estejamos cientes da velocidade com que o mundo está mudando. Se a temperatura média no Reino Unido em janeiro for 7°C, temos a sensação de frio a maior parte do tempo e nos agasalhamos nas manhãs geladas quando sopra um deprimente vento noroeste. Resmungamos: onde está o aquecimento global agora? No verão, a média é de 20°C em julho e desfrutamos uma semana com temperaturas máximas de 30°C, mas grunhimos se cair a 15°C por um mesmo período. Ainda assim, há apenas vinte anos, essas temperaturas de inverno e de verão teriam sido registradas como anormalmente quentes para essas épocas do ano. A precipitação pluvial nos condados orientais do Reino Unido sempre foi baixa, na faixa de 500 milímetros por ano, mas a zona rural sempre foi exuberante e verde, porque permanecia fresca durante o verão. Em comparação, o Arizona, que tem uma precipitação pluviométrica semelhante, é quase inteiramente cerrado e deserto simplesmente por ser bem mais quente e pelo fato de a chuva que cai secar inteiramente ou escorrer para dentro dos canais antes que as plantas possam aproveitá-la. Nosso condado mais ao sudeste, Kent, já está com escassez crescente de água, e o sul da Europa é agora quase um deserto. A adaptação, como animais individuais, não é tão difícil: quando uma tribo muda das regiões temperadas para as tropicais, leva apenas algumas gerações para que os indivíduos se tornem mais escuros à medida que a seleção elimina os de pele clara. Também é assim com todos nós: nosso mundo mudou para sempre, e teremos de nos adaptar a muito mais que a mudança climática. Mesmo durante meu tempo de vida, o mundo encolheu em relação àquele que era bastante vasto para fazer da exploração uma aventura e incluía muitos lugares distantes onde ninguém tinha jamais caminhado. Agora, tornou-se quase uma cidade interminável, encravada numa agricultura intensiva, mas domesticada e previsível. Em breve, poderá reverter novamente a uma selva. Para sobreviver nesse novo mundo, precisamos de uma filosofia Gaiana e precisamos nos preparar para combater um chefe militar bárbaro disposto a nos capturar e a se apoderar de nosso território.

Exceto por uma eventual inundação desastrosa, onda de calor excessiva ou temperatura congelante inteiramente inesperada, o clima no Reino Unido mudará lenta e imperceptivelmente no início. Pessoas em cidades como Londres esquecerão que, mesmo nos dias de bonança não muito distantes, o ar-condicionado quase nunca era necessário no verão, enquanto meu colega Gari Owen me lembra que Londres em 2006 usou mais energia para esfriar que para aquecer. Em curto prazo, não é provável que aconteça aqui algo muito exagerado com o clima, algo que instigasse uma rebelião. O que poderia fazê-lo são as consequências desastrosas da elevação do nível do mar, levando à destruição de uma grande cidade ou ao colapso do abastecimento de alimentos ou eletricidade. Esses perigos serão agravados pelo fluxo sempre crescente de refugiados climáticos, ao qual se somará o fluxo de repatriados que deixaram o Reino Unido por aquilo que imaginaram que seria uma vida agradável na Europa. Os perigos mais graves não provêm da mudança climática em si, mas indiretamente da fome, disputa por espaço e recursos e guerra tribal.

Em um pequeno grau, a difícil situação dos britânicos em 1940 lembra o estado do mundo civilizado agora. Naquela época, tínhamos quase uma década da crença bem-intencionada, mas inteiramente equivocada, de que a paz era tudo o que importava. Os seguidores dos lobistas da paz dos anos 1930 eram parecidos com os movimentos verdes agora; as intenções eram mais que boas, mas inteiramente impróprias para a guerra que estava prestes a começar. A falha fundamental dos lobistas verdes de agora se revela no próprio nome Greenpeace; por aglutinarem o humanismo dos movimentos pela paz com o ambientalismo, eles inconscientemente antropomorfizam Gaia. Está na hora de despertar e perceber que Gaia não é nenhuma mãe acolhedora que acalenta os seres humanos e que pode ser aplacada por gestos como comércio de carbono ou desenvolvimento sustentável. Gaia, mesmo que façamos parte dela, sempre dita os termos da paz. Em maio de 1940, despertamos para descobrir, encarando-nos do outro lado do canal da Mancha, uma força continental inteiramente hostil prestes a nos invadir. Estávamos sozinhos, sem nenhum aliado efetivo, mas tivemos a sorte de ter um novo líder, Winston Churchill, cujas palavras comoventes sacudiram a nação inteira de sua letargia: “Nada tenho a oferecer, senão sangue, trabalho duro, lágrimas e suor.” Precisamos de um outro Churchill agora, que nos tire do pensamento insistente, acomodado e consensual de fins do século XX e una a nação num esforço resoluto de travar uma guerra difícil. Precisamos de um líder que instigue todos nós, mas especialmente atice aqueles jovens ativistas verdes que tão bravamente protestaram contra todas as formas de profanação dos campos. Onde estão os batalhões de “Terra acima de tudo” e para onde foram Swampy* e seus amigos?

O que mais me comoveu quando escrevia este livro é o pensamento de que nós, seres humanos, somos importantes em termos vitais como parte de Gaia, não através do que somos agora, mas pelo nosso potencial como espécie para sermos os progenitores de um animal muito melhor. Gostemos ou não, somos agora seu coração e mente; mas, para continuarmos a melhorar esse papel, teremos de garantir nossa sobrevivência como espécie civilizada e não retroceder a um aglomerado de tribos guerreiras, que foi um estágio de nossa história evolutiva. Fico emocionado com a ideia de que o sistema Terra, Gaia, tem mais de um quarto da idade do universo e que tudo isso para que evoluísse uma espécie capaz de pensar, comunicar e guardar pensamentos e experiências. Como parte de Gaia, nossa presença começa a tornar o planeta mais consciente. Deveríamos estar orgulhosos de poder fazer parte desse gigantesco passo, aquele que poderá ajudar Gaia a sobreviver enquanto o Sol continua seu lento mas inevitável aumento da produção de calor, fazendo do sistema solar um ambiente futuro cada vez mais hostil. Temos de fazer tudo que pudermos, e o Capítulo 5 trata das ideias que agora circulam entre cientistas e engenheiros que poderiam reverter a mudança climática. São, até agora, inexperientes, inseguros e possivelmente perigosos, um pouco como a medicina e cirurgia do século XIX. Se conseguirmos manter a civilização viva durante todo este século, talvez exista uma chance de que nossos descendentes algum dia sirvam Gaia e a auxiliem na autorregulação delicadamente ajustada do clima e da composição do nosso planeta.

Desfrutamos 12 mil anos de paz climática desde a última mudança da era glacial para a interglacial. Não demorará muito e poderemos nos defrontar com uma devastação de alcance planetário pior até que uma guerra nuclear ilimitada entre superpotências. A guerra climática poderia matar quase todos nós e deixar os poucos sobreviventes com um padrão de vida comparável ao da Idade da Pedra. Mas em vários lugares do mundo, inclusive no Reino Unido, temos uma chance de sobreviver e, até mesmo, de viver bem. Para que isso seja possível teremos, neste momento, de deixar nossos botes salva-vidas em condições de enfrentar o mar. Mesmo que algum evento natural, como uma série de grandes erupções vulcânicas ou um decréscimo da radiação solar, nos dê uma trégua, ainda assim terá sido melhor gastar nosso dinheiro e nossos esforços tornando nossos países autossuficientes em alimentos e energia e, se quisermos nos tornar inteiramente urbanos, então, na criação de cidades nas quais tenhamos orgulho em viver.

Clipping

Fonte: Folha Online

Sobre as nuvens e tudo o mais

Posted by Navii On dezembro - 17 - 2009

Por Nelson Pretto

nelson@pretto.info


Escrevo enquanto sobrevoo o Atlântico.

As nuvens embaixo dão uma sensação de superioridade e, ao mesmo tempo, de pequenez. Ao longo de uma semana, percorri diversos lugares, acompanhando as notícias do mundo. Li sobre a guerra do Afeganistão, com o recebimento de mais tropas, e sobre a persistente crise em Honduras. Vivi de perto as discussões sobre a Catalunha, que briga com a Espanha por seu espaço enquanto nação– ali, para se ter uma ideia, os endereços na internet não são .es e sim .cat, de Catalunha.

Acompanhei, quase de perto, a greve de fome da líder sarauí Aminetu Haidar, que luta pelo respeito ao seu povo. Também estive bem perto da manifestação de professores em Valência, na Espanha, e,ao mesmo tempo, acompanhei a decisão das autoridades madrilenas de, através de lei, fortalecerem os professores, dando-lhes um pouco de poder. Veja onde chegamos: para que um professor tenha poder e seja ouvido como liderança, necessita de lei e, o mais curioso, tal lei obteve o apoio de mais de 57% dos pais.

Enfim, uma semana de viagens e de temas que me tocam de forma profunda. Agora, ouço no fone de ouvido uma estação que toca jazz e bossa brasileira. Que qualidade! Do jazz e da música brasileira, que, enfim, são farinha do mesmo saco. Farinha boa e saco bom.

Este momento de tranquilidade possibilitado pelo avanço da ciência e da tecnologia, que permite objeto desse tamanho voar, me faz, cá do alto, pensar sobre o nosso existir e o quão pequeno tem este se tornado, em razão da perda de valores tão elementares. Tudofica apertado, no coração, na casa, nas relações, na vida.

Tudo fica reativo. Reagimos a tudo: à violência ou à simples presença do outro. Tudo dá medo.

Tudo termina virando o mesmo, o igual, a mesmice. Me pergunto (e te pergunto): por que transformamos tudo nessa mesmice? O que sei é que a política não dá mais conta dos desafios, tomada pela corrupção e por projetos eleitoreiros de curto prazo, encurtados mais ainda em anos de eleição. A educação vira moeda de troca e, no fundo,nada mais vale.

A cultura virou pura e simplesmente um negócio.

Na Espanha, estes dias, artistas manifestaram se em defesa das leis de copyright, querendo impedira troca de arquivos pela internet, chamando isso de pirataria.Os piratas somalis – esses, sim, piratas! – saqueiam e fazem reféns marinheiros, conseguindo assim mais dinheiro além da carga. Tudo virou dinheiro, dinheiro muito e dinheiro pouco. Em Salvador, vejo assaltos a ônibus onde são roubados simples passes. A vida vale um passe e, como dizem os espanhóis, pasa nada! Tudo fica tão pequeno e os problemas tão grandes que, olhando as nuvens aqui do alto, me pergunto: para quê? Para que estamos vivendo e o que pensamos para o ano que se aproxima? As festas, as celebrações e, no fundo, sempre a esperança de um ano melhor.

Mas as questões concretas do presente, muitas vezes, nem mesmo as percebemos.

Olhemos para nós mesmos: gastamos menos água? Damos bom-dia, boa-tarde e obrigado para aqueles que cruzam nosso caminho diário? Dirigimos com mais tranquilidade e respeito aos outros? Compramos só o que necessitamos e compartilhamos o que não necessitamos? Conversamos com os filhos para entender o que pensam, ou terceirizamos tudo: a educação, o lazer,aterapia, o amor, a convivência? Desafios não nos faltam, por certo. Mas nos falta, seguramente, coragem para enfrentálos deforma diferente daquela mais fácil do isolar (literalmente) os problemas. Com cercas e muros, portões eletrônicos e vidros escuros, num isolamento diuturno.

Pessimista eu? Não, apenas vendo as nuvens e imaginando que, aí/cá embaixo, a vida está, de fato, muito ruim. E fazemos muito pouco para verdadeiramente mudá-la.

Lembro um pouco mais da Espanha que ficou para trás. Penso em Ética para Náufragos de José Antonio Marina, que propõe uma ética da dignidade no lugar de uma ética da sobrevivência.

Como está difícil pensar nessa outra ética no mundo de hoje! Aquino avião,pensando sobre tudo isso,decido ver um filme. O filme? Pouco importa. O que importa é que me fará, literalmente, viajar.

Como fazem o cinema, o livro, a música e todas as artes. Assim, pode ser possível pensar em boas viagens, para 2010.

Nelson Pretto é professor associado da Faculdade de Educação da UFBA

Fonte: A Tarde, 17.12.2009


Por Bob Fernandes

César Benjamin, 55 anos, é ex-preso político e um dos fundadores do PT. Na sexta-feira, 27, Benjamin escreveu um artigo na Folha de S. Paulo e acusou o hoje presidente Lula de ter revelado, em 1994, uma tentativa de estupro dele, Lula, contra um “menino do MEP”. Tentativa que teria acontecido em 1980, quando o então líder sindical Lula esteve preso por 30 dias, e na mesma prisão, com o jovem da organização de esquerda que já não existe, o MEP. César Benjamin cita, em seu texto, uma testemunha, “um publicitário brasileiro que trabalhava conosco cujo nome também esqueci”.O “publicitário” é o cineasta Silvio Tendler, que em 1994 trabalhou na campanha de Lula à presidência da República. De início, afirma Tendler:

- Ele diz não se lembrar de quem era o “publicitário”, mas sabe muito bem que sou eu. Eu estava lá e vou contar essa história…

Sobre os fatos e a acusação, gravíssima, o cineasta, o documentarista Silvio Tendler conta o que viu e o que recorda daquele almoço em meio à campanha presidencial de 1994:

- Era óbvio para todos que ouvimos a história, às gargalhadas, que aquilo era uma das muitas brincadeiras do Lula, nada mais que isso, uma brincadeira. Todos os dias o Lula sacaneava alguém, contava piadas, inventava histórias. A vítima naquele dia era um marqueteiro americano. O Lula inventou aquela história, uma brincadeira, para chocar o cara…só um débil mental, um cara rancoroso e ressentido como o Benjamin, guardaria dessa forma dramática e embalada em rancor, durante 15 anos, uma piada, uma evidente brincadeira…

Veja também:
» Leia o artigo de César Benjamin na Folha de S. Paulo
» Saiba mais sobre a prisão de Lula em 1980
» Siga Bob Fernandes no twitter

Silvio Tendler já fez cerca de 40 filmes, entre curtas, médias e longas-metragens. Além de vários prêmios é detentor das três maiores bilheterias de documentários na história do cinema brasileiro: “O Mundo Mágico dos Trapalhões” (1 milhão e 800 mil espectadores), “Jango” (1 milhão de espectadores) e “Anos JK” (800 mil espectadores).

Na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, neste 2009, Silvio Tendler lançou o documentário “Utopia e Barbárie”, no qual trabalhou durante 19 anos. Dentre os personagens ouvidos pelo documentarista mundo afora, o general vietnamita Vo Nguyen Giap, que derrotou os exércitos francês e americano. “Giap, o maior general do século XX”, segundo o cineasta.


O ex-preso político César Benjamin (foto Agência Brasil)

Na conversa que se segue, o documentarista Silvio Tendler recorda a história da história de Lula e o “menino do MEP”.

Terra Magazine - Silvio Tendler, é você o publicitário citado por César Benjamin no artigo na Folha de S.Paulo?
Silvio Tendler - Eu mesmo, em pessoa.

Você estava lá? Você, o Lula, o César Benjamin, o publicitário Paulo de Tarso e o tal marqueteiro dos Estados Unidos?
Na verdade eu não me lembro é do César Benjamin lá no almoço (…) e, sim, o publicitário que ele diz não lembrar era eu. E ele, se estava lá, sabe e se lembra que era eu; não tinha mais três publicitários na campanha, portanto ele sabe que era eu quem estava lá…mas eu não sei se ele estava, não me lembro, de verdade, se ele tava na sala. Ele agora diz não se lembrar do “publicitário” porque sabe que eu não iria corroborar essa maluquice, até porque eu vi, testemunhei, a quantidade de erros, de bobagens que ele cometeu durante a campanha…

Ele, César Benjamin?
Ele, Benjamin…por exemplo: já tava tudo perdido, um dos poucos apoios que o Lula ainda tinha depois daqueles erros de ataques da campanha ao Plano Real, era o da Igreja. E de repente o César resolveu botar como pauta do dia o quê?

O quê?
O aborto! Só isso. Esse cara montava e desmontava os programas como se fosse um expert em comunicação… e não era. Me lembro de outra história dele. Tinham inventado uma legislação casuística, criada para segurar o Lula, que tinha feito aquelas caravanas pelo Brasil. Não podia ter imagem externa em movimento… então fizemos um video-clip, eu e minha ex-mulher, a jornalista Tânia Fusco. Ela fez o texto, e eu, com as fotos dele na caravana e outras imagens, fiz, fizemos um clip, uma biografia do Lula a partir de fotos…

E aí?
Aí fui dar aula no Rio de Janeiro por dois dias, o comando da campanha era em São Paulo, e quando voltei o clip estava desfigurado pelo gênio da comunicação. Onde havia poesia o César colocou chavões do tipo “arrocho salarial”…

Por quê?
Porque se acha um gênio, melhor do que todo mundo… peguei meu boné e fui embora pro Rio…

E o César?
Ele continuou com suas trapalhadas. E quinze anos depois ele segue em campanha, agora contra o Lula diretamente. Ele atrapalhou o Lula em 94 e segue tentando atrapalhar o Lula.

Ok, esses detalhes à parte, você estava à mesa do almoço no dia da tal conversa do Lula?
Eu estava lá, sentado à mesa. Eu sou o publicitário “anônimo” que estava lá. O Lula, um cara que foi brincalhão durante toda a campanha, mesmo quando já tava tudo perdido. Eu até pensava “esse cara passa a noite pensando em como sacanear os outros”, porque todo dia tinha uma piada, um brincadeira, uma vítima de gozação… nesse dia o Lula queria chocar o tal marqueteiro americano…

O James Carville era…
O James Carville tinha sido contratado para ajudar na campanha do Fernando Henrique e nós tínhamos o nosso americano também. O Lula brincava: “O americano do Fernando Henrique fez a campanha do Bill Clinton, o nosso americano fez a campanha do Daniel Ortega” (NR: Ex e atual presidente da Nicarágua). Bem, o Carville já tinha ou tava sendo mandado embora da campanha do FHC e a campanha do Lula também ia despachar o “nosso” americano.

E o que aconteceu?
…e aí, nesse dia, o Lula, claramente num clima de brincadeira, tava a fim de sacanear, de chocar o americano com essa história dele “seco” na prisão, todos na mesa, nós todos, sabíamos que aquilo era uma brincadeira, era gozação, sacanagem, e imaginando como seria se fosse traduzido pro cara…

Você tem, teve então a certeza de que era uma brincadeira? Não teve e não tem nenhuma dúvida?
Nenhuma. Era claro, óbvio que era uma brincadeira, mais uma piada, mais uma gozação do Lula, nenhuma dúvida. E além disso a história, a cena toda não teve de forma alguma esse ar, essa dramaticidade que o César enfiou nesse texto melodramático. É incrível essa história… todos sabíamos que aquilo era uma brincadeira, como tantas outras feitas durante a campanha…

As tais “conversas de homem”…
Nem era esse clima “conversa de homem”, era brincadeira, pura gozação, nenhuma responsabilidade, nunca, nunca com esse tom de “confissão” que o Benjamin fez parecer que teve. E você acha que se isso fosse, soasse verdadeiro, todos nós não ficaríamos chocados? Todos ali da esquerda, com amigos presos, ex-presos e tudo mais, você acha que nós ouviríamos aquilo com tom de verdade, se assim fosse ou parecesse, e não reagiríamos, não ficaríamos chocados?

Na sua opinião, que conhece os personagens dessa história, o que aconteceu?
O César Benjamin guardou ressentimentos por 15 anos para agora despejar todo esse rancor. Ele pirou com o sucesso do Lula. Ele transformou uma piada num drama, vai ganhar o troféu “Loura do ano”.

O Paulo de Tarso estava lá?
Estava. E estava o americano… pensa só uma coisa: você acha que o Lula, logo o Lula, tão pouco esperto como ele é, em meio a uma campanha presidencial, vai chegar na frente de um gringo que ele mal conhecia, um gringo que vai voltar pro país dele e contar tudo o que viu, você acha que o Lula vai chegar pra um gringo que nunca viu, na frente de testemunhas, e vai contar que tentou estuprar alguém? É, foi óbvio, evidente, que aquilo era gozação, piada, brincadeira, sem nada desse drama todo do Benjamin de agora… rimos e ninguém deu a menor importância àquilo…

Você, um cineasta, um documentarista que viveu a cena, relembrando-a quadro a quadro, o que verdadeiramente pensa, o que diria hoje?
O Lula adorava provocar… era óbvio para todos que ouvimos a história, às gargalhadas, que aquilo era uma das muitas brincadeiras do Lula, nada mais que isso, uma brincadeira. Todos os dias o Lula sacaneava alguém, contava piadas, inventava histórias. A vítima naquele dia era o marqueteiro americano. O Lula inventou aquela história, uma brincadeira, para chocar o cara… como é possível que alguém tenha levado aquilo a sério?

Então…
Isso não tem, não deveria ter importância nenhuma. Só um débil mental, um cara rancoroso e ressentido como o Benjamin, guardaria dessa forma dramática e embalada em rancor, durante 15 anos, uma piada, uma evidente brincadeira…

Fonte: Terra Magazine

Por que Luiz Inácio desagrada Caetano Veloso?

Posted by Navii On novembro - 20 - 2009

Por Marta Peres, professora da UFRJ

Grande artista, não faz falta a Caetano Veloso um diploma de nível superior.  Seus recentes comentários injuriosos a respeito do presidente com a maior aprovação da História do Brasil são   indiscutivelmente coerentes - com sua visão de mundo, com a visão da classe a que pertence, assim como dos meios de comunicação que as constroem incansavelmente, bloqueando qualquer ensaio de questionamento ao seu insistente pensamento único. Ao se referir a Lula como ?analfabeto?, o termo está sendo utilizado de forma equivocada, pois ?analfabetismo? significa ?não saber ler nem escrever?. Imagino que ele esteja se remetendo, de maneira exagerada, ao fato de Lula não ter diploma de graduação, coisa que o compositor  tampouco possui. Esse tipo de exigência não é nem mesmo cogitada ante outros artistas geniais como Milton, Chico, Cora Coralina… Gilberto Gil, ex-ministro do governo Lula, graduou-se, mas não em música…

“Ah, mas eles são artistas…” E não seria a Política uma arte? Um  pouco de Platão e Aristóteles não faz mal a ninguém…

Quanto à suposta “cafonice” de nosso presidente, situado na revista  americana Newsweek em 18° lugar entre as pessoas mais poderosas do  mundo, Pierre Bourdieu (1930-2002) nos traz uma contribuição preciosa. De origem campesina, como Lula, o sociólogo francês criou conceitos

que desmoronam o velho chavão do “gosto não se discute”. Para  Bourdieu, não só se deve discutir, como estudar, compreender, aquilo que se trata de, mais que uma questão de “classe”, uma questão de  “classe social”. Além do enorme abismo do ponto de vista propriamente

econômico, os “gostos diferenciadores”, referentes ao “estilo de vida”, consistem na maior marca de violência simbólica e num fundamental instrumento de legitimação da dominação das classes

dominadas pelas dominantes. Não somente é desigual a distribuição de  renda numa sociedade dividida em classes, mas também o acesso à  educação formal e informal - o hábito de freqüentar museus,  espetáculos de teatro, música, dança - à sofisticação do vocabulário,  às regras de etiqueta, à constituição da apresentação pessoal, dos  “modos” e atitudes corporais. Obviamente, alcançar maior poder aquisitivo não possibilita a aquisição desse “capital cultural” adquirido ao longo de toda uma vida no convívio com “outras pessoas elegantes”, ou seja, com a “elite”. Uma expressão precisa para  designá-las, utilizada corriqueiramente na Zona Sul do Rio, é “gente

bonita” - como sinônimo de portadores de determinadas marcas de classe  evidentes pelo vestuário, linguajar, cabelos, corpos, modos, atitudes.  Bourdieu demonstrou os aspectos, às vezes despercebidos, da  “construção social” do gosto, seja o gosto de Caetano, das elites, dos

que gostariam de ser elite, pretendendo se distinguir da massa supostamente “inculta”. Em outras palavras, as classes às quais  pertencemos determinam, em grande parte, nossos critérios

aparentemente inatos do que vem a ser elegância, numa relação de  constante imitação, pelos “cafonas”, dos considerados detentores dos  critérios de julgamento estético.

Lula não segue a corrente dos imitadores: mantém-se fiel à cafonice  que o identifica com suas origens populares. Ah, como isso incomoda… Embora seja assistido desde tempos imemoriais, lembrando que Norbert  Elias estudou como a nobreza francesa era imitada por suas congêneres

do resto da Europa no Ancien Régime, aqui, no Brasil, o fenômeno da  distinção alcança as fronteiras do “nojo”, das reações fisiológicas  desagradáveis, diante de tudo que possa remeter a atributos das classes populares, tudo que venha do “povão”.

Não é à toa que o REUNI - Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais - que tem como objetivo “criar condições para a ampliação do acesso e permanência na educação superior, no nível da graduação, pelo melhor aproveitamento da

estrutura física e de recursos humanos existentes nas Universidades  Federais” seja alvo de críticas ferrenhas, apesar de vir ao encontro de demandas por mais vagas já presentes nos protestos estudantis da  França e do Brasil há quarenta anos, os quais, aqui, jamais sequer

haviam sido objeto de atenção pelos governos. A demanda por cidadania  e não por privilégios restritos é assunto que dá nojo, dá “gastura”,  como se fala no interior do Brasil. Mas isso são outros quinhentos…

Embora o acesso universal à educação deva ser uma meta, podemos   questionar  “como muitos eminentes acadêmicos questionam” que a universidade seja a única fonte de conhecimento legítimo, sob o risco de repetirmos, em outros moldes, o papel de detentora do saber  exercido pela Igreja Católica Medieval. O que seria de nós sem a  contribuição inestimável de tantos notáveis que por ela não passaram?

Pode-se argumentar, contudo, que o referido compositor não tem  preconceito de classe ou contra a falta de diploma, pois pretende  votar em Marina Silva que, como Caetano, não possui graduação, e que, como Lula, tem origem humilde. (O curioso é que, sendo a candidata à

sucessão de Lula uma economista, dessa vez, a mesma é cobrada por não   possuir mestrado e acusada de ter lutado contra a ditadura militar:  sempre inventarão motivos contrários a políticas públicas que ferem   ideais de distinção de classe). Ao contrário do que parece, os  atributos de Marina caem como uma luva para nossa conservadora classe  média leitora do Globo e da Veja e que jamais se assumirá   preconceituosa: portar a nobre e indignada bandeira da causa verde faz

disparar sua pontuação no quesito “elegância”. Os que se preocupam  ardentemente com a possibilidade de vida de seus netos e bisnetos são  tocados em seu íntimo pelas questões ligadas à salvação das florestas.

Só que, mais uma vez, como a História sempre ajuda a enxergar, o  buraco na camada de ozônio  é mais embaixo: a destruição do planeta  é a consequência inexorável de um sistema perverso que nele vem se  instalando há alguns séculos. Ao longo de suas notáveis  transformações, atingiu um ponto em que passou a se dar conta de seu   próprio potencial de destruição e de identificar na preocupação com a  natureza uma boa - e quem sabe, lucrativa - causa.

Do ponto de vista das chamadas “Gerações” de Direitos Humanos, ao  longo dos desdobramentos do capitalismo, a causa ecológica nasceu como  a terceira filha. Enquanto a primeira, a segunda e a terceira gerações  são identificadas com os ideais da Revolução Francesa - Liberdade,  Igualdade e Fraternidade - a quarta, mais recente, relaciona-se a  questões da Bioética e aos movimentos de segmentos minoritários ou  discriminados da sociedade. A liberdade refere-se aos direitos civis e  políticos, chamados de “direitos negativos”, pois limitam o poder  exorbitante do Estado, que deve deixar o indivíduo viver e atuar  politicamente. A igualdade consiste na luta pelos direitos sociais, culturais, econômicos, e demandam uma atuação “positiva” do Estado no  sentido de realizar ações que proporcionem condições de acesso de

todos os indivíduos à educação, saúde, moradia, assistência social,  dignidade no trabalho. Finalmente, a fraternidade esta ligada à  ecologia, à preocupação com o destino da humanidade, irmanada por sua  condição de habitante do planeta Terra.

Como se situaria o Brasil nessa História? Não vivemos mais no tempo de   Marx, das jornadas de trabalho de 18 horas que não poupavam mulheres e  crianças caindo mortas de fome ao redor das grandes máquinas sujas das   fábricas. Hoje, longos tentáculos buscam mão de obra barata como a   planta se dirige à luz do sol e os dejetos  da poluição e os seres  humanos excluídos da participação em suas benesses - são escondidos do  campo de visão dos que têm “bom gosto”. Depois de destruir suas  próprias florestas, os países ricos se preocupam e ditam regras da

etiqueta politicamente correta aos pobres, abraçando a “causa  ecológica” com a mesma eloqüência que ontem defenderam que a “mão  invisível do mercado” traria a felicidade geral. Hoje, uma mão visível  segura imponente a bandeira do orgulho verde. Porém, o corpo do qual

faz parte constitui-se de fome, miséria, doença, condições abaixo de  qualquer noção de dignidade da pessoa humana. A bandeira parece ser de  um médico, mas o sujeito que a segura é um “elegante” monstro. Chega a ser apelativo falar em salvar o planeta tirando de contexto uma causa que ninguém ousará contestar. Mas que tal pesquisar casos concretos de  vínculos incontestáveis entre partidos verdes de diferentes países com os setores mais conservadores das respectivas sociedades? Visualizando  a imagem do monstro, de braços dados com uma chiquérrima Brigitte  Bardot salvando animais, faz todo sentido. A Bela e a Fera…

De modo algum defendo qualquer teleologia e que tenhamos que passar  por fases que os outros já passaram. Nem que os sete anos de governo Lula tenham se proposto a enfrentar bravamente, contra tudo e contra  todos, o capitalismo que domina quase toda a superfície do planeta.     Ninguém falou em Revolução, aliás, não era esse o combinado. Apenas  assisto a um esforço hercúleo de instaurar políticas que ferem o  coração desses mecanismos de violência, real e simbólica, que o  julgamento do que é ou não cafona só vem a perpetuar, no sentido de

minimizar o enorme fosso que separa os que têm e os que não têm acesso  a conquistas históricas impreteríveis do Ocidente, independentemente de obediência a qualquer cronologia, identificadas com os direitos humanos: combate à fome à miséria, acesso universal à educação, à energia elétrica, diminuição da desigualdade ímpar que nos assola. Fraternidade, também quero, mas junto com a Liberdade, e principalmente, o que mais nos falta, Igualdade! Não igualdade no

sentido anatômico, igualdade de condições, junto com a quarta geração.

Não indignar-se com a miséria, agarrar-se ferrenhamente a seus  privilégios, assim como espernear diante de sinais de mudança, faz parte do aprendizado de cegueira, inércia e arrogância por que passam  nossas elites com seu gosto sofisticado. Mas ao contrário de um regime

de concordância geral, o ideal de democracia é caracterizado justamente pela coexistência de opiniões diversas a respeito das  políticas do governo. À insatisfação proveniente de certo campo

ideológico correspondem, certamente, avanços jamais assistidos na  História do Brasil. Com vínculos ideológicos resumidos na figura de  ACM, nutridora de uma ordem social desigual desde 1500, existe uma  indiscutivelmente sincera elite baiana à qual, desagradar, é sinal de

que Lula está no caminho certo!

“Prefeito prefere trocar postes cinzas por azuis do que rever PDDU”

Por Paulo Ormindo de Azevedo


O 460º aniversário de Salvador passou quase despercebido.
Realmente não há muito a comemorar.
Em 60 anos de “laissez-faire”, a cidade acumulou índices assustadores de compactação demográfica e veicular, concentração de pobreza, insegurança e destruição do meio ambiente, que apontam para seu colapso em curto prazo. A cidade possui hoje 4.172 habitantes por km², densidade superior à de Bombaim, segunda colocada. Para piorar, a urbe se transformou, por falta de política metropolitana, em dormitório e provedor das necessidades de 3,76 milhões de moradores da Grande Salvador. Camaçari, Lauro de Freitas, Simões Filho e Candeias juntas faturam receita igual à de Salvador, transferindo para esta o passivo de serviços e infraestrutura.
Seu déficit habitacional é de 100 mil habitações, das quais 80% são de famílias fora do mercado imobiliário. Para satisfazer aos 10% dos candidatos com renda superior a cinco salários mínimos, o novo PDDU consentiu que o setor imobiliário devorasse as entranhas verdes da cidade, a orla e os bairros consolidados.
Cerca de 35 mil novos automóveis e o dobro de motos são licenciados a cada ano. O metrô de Salvador, cuja construção dura seis anos, é dos mais caros do mundo. Terá 6 km, 6 trens e custará R$ 1,16 bilhão, se inaugurado em 2010. No Recife, o metrô foi construído em dois anos, tem 34,7 km, 25 trens, transporta 180 mil por dia e custou R$ 750 milhões, segundo H. Carballal (A TARDE, 23/3/09). Isto para não falar no impacto ambiental e déficit operacional.
As duas saídas rodoviárias da cidade, a Paralela e a BR-324, estão no limite e ainda se fala em construir uma ponte para Itaparica para trazer os caminhões da BR-101 para o nó do Iguatemi, em vez de construir um arco rodoviário. Isto quando Manhattan e cidades europeias cobram pedágios e proíbem a construção de novas garagens para evitar a entrada de mais carros. Em Salvador, alguns apartamentos centrais têm até seis vagas. Não há planejamento nem qualificação dos projetos públicos, que são oferecidos pelas empreiteiras interessadas, vide a ponte de Itaparica e o parque da Vila Brandão. A Sedham funciona como uma Defesa Civil, mais que um órgão de planejamento. As licitações são feitas em função do menor preço, ou seja, do pior projeto e menor tempo.
O desperdício é grande, viadutos são construídos e não servem para nada, as ruas são refeitas a cada inverno. O Pelourinho é recuperado todo ano. Os conjuntos habitacionais, sem serviços, são novas favelas, estão se desfazendo.
E vai-se implodir o parque olímpico da Fonte Nova, cujo laudo da Politécnica diz ser recuperável, para construir uma nova arena menor e um shopping, para dois dias de festa. O que acontecerá com a Copa, se chover, com a cidade alagada e parada como se viu há pouco? As questões ambientais têm o mérito de nivelar todos. Os condomínios fechados da Paralela foram invadidos por barbeiros, dengue, sapos, lagartos e cobras.
O senhor prefeito teve de mudar de casa e gabinete, mas prefere trocar postes cinzas por azuis do que rever um PDDU aprovado com 180 emendas de última hora. A classe média já não suporta os engarrafamentos e se tranca em torres e condomínios mistos de vida monástica, com celas, refeitório, oficinas, botica e orações televisivas no mesmo lugar. Considerada patrimônio da humanidade, Salvador mergulha hoje na mediocridade imobiliária. Fernando Peixoto lamentou a “paulistização” da cidade. Arilda Cardoso denuncia a perda de patrimônio histórico e verde.
Neilton Dórea constata: “Hoje, há uma arquitetura dependente… A maioria (dos arquitetos) é desenhador de uma vontade empresarial” (Muito, de 29/3).
Mas não devemos ser pessimistas. A sociedade civil se organiza em movimentos como “A Cidade Também é Nossa” e “Vozes da Cidade”, os ministérios públicos, federal e estadual, assumem o papel que lhes cabe. Não é desmatando, segregando e verticalizando que se vai resolver os problemas de Salvador, senão pensando grande e democraticamente, compreendendo que Salvador só tem saída na região metropolitana.
São estas questões que cidadãos, ricos e pobres, de Salvador querem discutir, antes que a cidade entre em colapso completo.

Paulo Ormindo de Azevedo - doutor pela Universidade de Roma, professor titular da Universidade Federal da Bahia e presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil - Deptº Bahia

Salvador ganha duas novas salas de cinema

Posted by Navii On setembro - 4 - 2009

Saladearte Cine Vivo é inaugurada, no Shopping Paseo Itaigara

Para quem curte assistir a bons filmes nas telonas, está aqui uma excelente novidade. Salvador ganha, a partir de sexta-feira (4), duas salas top de cinema. Localizado no Shopping Paseo (Itaigara), o cinema Saladearte Cine Vivo possui salas com capacidade para 115 e 60 pessoas.

Com sistema de som dolby digital, projetor digital, café e galeria de arte, que abre com exposição do artista plástico baiano Waldo Robatto, a Saladearte Cine Vivo exibe em sua primeira semana os filmes “Amantes”, “A Partida”, “Almoço em Agosto” e a estréia de “Uma Canção de Amor”.

Às quartas-feiras, os ingressos valem R$ 14,00 (inteira); às segundas, terças, quintas, sextas, sábados, domingos e feriados, o valor é de R$ 18,00. Clientes da operadora Vivo pagam meia-entrada em qualquer sessão. É esperar para conferir!

Fonte: Nublog

Clipping Navii

meioagreste

Líder do Asa de Águia lança linha de bancos de couro

Posted by Navii On setembro - 2 - 2009